Mas não agora.

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diabranco

Se eu pudesse te dizer alguma coisa hoje, qualquer coisa, eu diria isso: não saia de casa. Não coloque aquela camisa vermelha, não use aquele seu perfume, mas principalmente, não saia de casa. Não desça do prédio quando o Rafa estiver lá embaixo, não bebam cerveja no ônibus, não venham pro carnaval de Olinda.

Porque em alguma daquelas ladeiras, bem ali nos Quatro Cantos ou na Ribeira, você nem sabe ainda, mas a gente vai se esbarrar no meio daquela multidão dançando frevo. E o Rafa vai beijar a Bia, seu amigo beijando a minha amiga e os dois deixando a gente sozinho, juntos.

 E enquanto seguramos vela, vamos nos olhar como quem diz e agora? E agora o quê? E agora o que a gente faz? Vamo beber, é carnaval, né. Vamo. Tais bebendo o quê? Cerveja. Eu também, toma aqui o resto da latinha. Massa. Tão demorando eles, né? Pois é. E se a gente fizesse que nem eles? Eita. E é? É. Bora? Olhe… Oxe, é carnaval! Que besteira. Hahahaha. Bestinha todo. Não ria, não. Venha cá. Pra quê? Venha me dar um beijo. É? É. Tá bom, eu vou. Venha.

 E se eu não quiser mais parar de te beijar? Vai ter que querer, meu filho, é carnaval. É, né? É. Mas se eu não quiser? Vai ter que querer. Vai ter que querer.

 E aí o primeiro beijo vai virar outros mil beijos, bem ali no meio daquela massa de gente colorida, fantasiada, naquela rua cheia de pedras que já viram tantos beijos, nós fomos mais um. Mais vários. Viramos uma coisa só, dividindo a multidão em duas bandas, um colado no outro naquele calor, no meio daquela festa e da música, e obeijo tinha gosto de cerveja gelada, de confete, de agitação. Era o sábado de Zé Pereira, e entre ladeira e ladeira, tantos blocos passaram pela gente levando seusestandartes, tantas orquestras com o ritmo acelerado feito nosso coração, tantos sorrisos mascarados, tantos brilhos nos olhos, tantos gritos emocionados cantando o Hino do Elefante. O carnaval passou pela gente, bem na nossa cara, e a gente não viu. Quando fomos ver, já era terça de noite e a quarta de cinzas tava só contando os minutos pra chegar e acabar com a festa.

Alceu agora tá encerrando o carnaval no Marco Zero, e eu, de flor no cabelo, você com a barba por fazer , nós dois chorando porque estava tudo acabando. Ninguém mais jogava confete, ninguém mais sorria, todo mundo parecia estar se despedindo de alguém ou de alguma coisa. Ou de tudo ao mesmo tempo. O carnaval estava acabando, eu e você também, e lá da Rua do Bom Jesus dava pra ouvir os últimos acordes de Quando fevereiro chegar. Agora só no ano que vem e quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente. Mas eu achava que ia morrer ali mesmo, sentada na sarjeta, te olhando limpar o rosto das últimas lágrimas. A gente não ia se ver nunca mais e isso parecia impossível.

Porque era só fechar meus olhos pra lembrar tudo de novo, a gente se beijando e rindo debaixo do sol quente, a sua camisa vermelha, meu batom vermelho borrado, e Vassourinhas tocando numa ladeira ali perto. Sem você, não ia ter carnaval. As alfaias iam parar de bater, os músicos iam voltar pra casa, iam mandar tirar o Galo daponte e cancelar os quatro dias. Mas pior do que isso é que agora você ia embora de vez e todo dia agora ia quarta de cinzas, pra sempre.

O sol já está quase nascendo e eu ainda não consegui te soltar. Já parei de chorar, mas não posso te deixar ir. Esse ano nem choveu na terça de noite, sempre chove. É o mundo se lamentando porque o carnaval acabou. Não quero que você vá. Mas vou ter que querer. Vou ter que querer. Nas casas alugadas de Olinda, os gringos estão arrumando as mochilas agora e saindo pela rua levando seus colchões debaixo do braço. É colocar o pé na rua que aslembranças viram saudade na hora. Mesmo que eles voltem todo ano, nenhum carnaval vai ser esse carnaval. Nós dois também, nunca mais seremos os mesmos.

 Olinda agora respira entre soluços, porque é hora de guardar os enfeites, se despedir dos amigos e dos amores eternos de quatro dias, de curar a ressaca e voltar pra vida normal que não tem nem metade do brilho, metade da cor, metade do frevo que tinha antes.

 Não quero que não seja mais carnaval. Não quero que meu pra sempre com você termine agora.

 Mas vou ter que querer.

 Por isso, eu lhe digo logo: não saia de casa hoje, sábado de Zé Pereira. Não vá pra Olinda. Não me encontre. Não deixe Rafa e Bia se beijarem. Não deixe o carnaval acontecer, nem a quarta de cinzas chegar tão depressa, só pra contrariar. Não sorria pra mim desse seu jeito. Não divida sua cerveja comigo. Não me chame pra lhe beijar debaixo do sol de quarenta graus e no meio da multidão infinita. Não faça nada disso, não, seu cabra. E não me peça pra fazer.

 Porque se você me pedir, e me olhar, e eu te olhar, e meu coração fizer um maracatu aqui dentro do peito, eu faço tudo de novo.