Mas não agora.

Um samba sobre o infinito

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Quando estávamos quase dormindo, com os rostos encostados e tão próximos quanto alguém poderia estar de outro ser humano, eu me senti em paz. Dessa vez não parecia errado chegar tão perto assim. Na verdade, parecia o lugar certo para estar, na hora certa, nos braços certos. Comecei a divagar sobre conjunções estelares, destino, almas gêmeas e o que mais se pensa nessas horas, quando a gente fica tão cafona que nem se reconhece mais.

Vi seus cílios se entrelaçando e sua respiração ficando mais profunda, e quase sem conseguir evitar, sussurrei: queria que esse momento durasse pra sempre.

Na mesma hora, ela abriu os olhos, as íris castanhas cheias de risquinhos me encarando, as unhas todas cobertas de esmalte vermelho descascado arranhando de leve o meu rosto, quando disse:

“Todos os momentos duram pra sempre. Isso não quer dizer que eles tenham que se estender infinitamente, como se estivéssemos presos num disco arranhado, repetindo a mesma música toda hora. Eu sempre vou me lembrar desse exato segundo, mesmo anos depois que a gente acabe. Não me olha assim, você sabe que a gente vai acabar. Pode demorar décadas. Pode ser daqui a pouco. Mas em algum momento, o amor vai ficar e nós vamos embora. Passando direto, olhando pra frente. E não vamos precisar ser iguais a todo mundo que diz ‘eu poderia ter te amado pra sempre’. Para ser pra sempre, não precisa durar pra sempre. Precisa só… ser. E nós já fomos. Estamos sendo. Seremos. E isso basta.

Nada dura pra sempre.

Nada.”

Ela era dessas. Fazia discursos intermináveis antes de pegar no sono e na manhã seguinte, não lembrava de mais nada. Me dava um beijo de bom dia e dizia que me amava.
E eu acreditava, porque ela só falava a verdade, mesmo que esquecesse depois.

Mas naquela noite, eu tenho que dizer que ela mentiu.

Alguns momentos, por mais bonitos que sejam, passam despercebidos, esquecíveis, descartáveis. Mas algumas pessoas, com suas unhas descascadas, íris castanhas cheias de risquinhos e vozes cheias de discursos sobre o amor…

Algumas pessoas duram pra sempre.

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Digital Love

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Porra.
Como eu sinto saudades de você.

Quando, naquele dia, há três anos atrás, você curtiu a minha foto mais antiga, eu nunca imaginei  que um dia fôssemos mudar nosso status de relacionamento juntos, de
solteiros, para casados. E agora, enquanto eu espero para nos falarmos pelo skype, cada um de  um lado do oceano, unidos apenas por uma conexão sem fio, não consigo
deixar de lembrar desses últimos três anos. Cada vez que você publicou no meu mural um link de música do youtube, com letras que pareciam ter sido escritas pra gente,
e eu respondia deixando uma inbox na madrugada, para que o meu ‘bom dia’ fosse a primeira coisa que você visse quando acordasse. Eu sei que até hoje você não me perdoa
por ter curtido aquela foto de sunga do Markinhos, mesmo que eu tenha jurado que foi sem querer. Mas olha, também não era fácil engolir a raiva quando você visualizava
minhas mensagens no whatsapp e demorava horas pra responder. E ter que aguentar as suas fotos de noitadas em bares com aqueles seus amigos então? E fingir que não me
importava, que não tava com ciúme. Mas tudo passava quando eu via aqueles seus tweets de domingo à noite: “a falta que a pessoa certa faz”. E eu sorria e sabia que não
precisava de mention, porque eram todos pra mim. Assim com os milhares de posts apaixonados do meu blog. Todos pra você, do começo ao fim. Daqui a exatos 6 segundos eu vou te ver pela tela, pela última vez antes de você voltar pra perto de mim. Internet é bom, mas não dá pra matar as saudades de verdade. Ela finge que morre, mas volta, assim que eu desligo o computador. Não tem bateria que dê conta, wifi, nem 3G que seja suficiente. Eu te amo. Mas não vou mandar e-mail, não vou publicar, não vou compartilhar. Vou guardar pra te dizer olhando dentro do seu olho, de pertinho, de verdade: porra, como eu senti saudades de você.

Internet é bom, mas não é suficiente.

Ninguém e todo mundo

A fome infinita das crianças de olhares tristes na África é aterradora. Perder dinheiro deixa qualquer um puto. Reginaldo Rossi morreu sexta e isso é triste. Bati meu dedão na quina da mesinha e estou sentindo a dor até agora. A roubalheira do mensalão e a cara de pau dos políticos faz qualquer brasileiro se revoltar. Meu coração se encolhe sempre que vejo alguma notícia sobre jovens vítimas de balas perdidas e acidentes de automóveis. Em Boa Viagem, não dá pra nadar até o fundo naquele mar tão bonito porque tem tubarão e todo mundo morre de medo dos ataques. Chorei até de manhã lendo aquele livro com o final tão trágico. Ninguém gosta de ficar de recuperação e ter as férias bem curtinhas. Insônia é uma merda, ressaca é foda, e ler ‘transação não autorizada’ é o pior jeito de tomar no cu. Ver uma mulher ser apedrejada pelo marido no Irã é aterrador. Quando o Carnaval cai em fevereiro é tão chato. Ver o Brasil perder na Copa do Mundo também. Flagrar sua mãe chorando então, nem se fala. Péssimo. Ter que acordar cedo no sábado seria a pior coisa do mundo se não existissem as segunda-feiras ensolaradas e as sextas chuvosas. Ir ao cinema sozinha sempre me deixa deprimida. Mais ou menos como quando leio tantas notícias sobre assaltos, estupros e homicídios aqui na cidade. Minha enxaqueca não passa de jeito nenhum. Acabou o requeijão. Tenho pouco dinheiro na conta. Sinto saudades de gente que não vou ver nunca mais. E odeio ficar sozinha nos sábados à noite quase tanto quanto odeio preconceito de qualquer tipo e calças brancas.

Tudo isso é ruim, mas nada no mundo se compara ao que eu senti naquele minuto em que você me disse:

“A gente é o oposto um do outro.
Enquanto eu não amo ninguém
Você ama todo mundo. ”

Depois desse dia, você virou todo mundo.
E eu virei ninguém.

Ressaca

Estamos a quatro anos de distância e dois mil e dezessete whiskies.

Quatro longos anos que vão te fazer morrer de arrependimento e sofrer de saudade de mim. Da gente.
Querer voltar atrás.
Mas agora, nesses exatos zero vírgula cinco segundos, quem fica pra trás sou eu, enquanto você sempre levanta e vai embora, na minha frente, que é pra eu ver as suas costas sumindo enquanto viram a esquina e eu ainda estou na calçada, andando devagar que é pra te deixar ir, mesmo querendo que você ficasse.
Eu sei que daqui a quatro anos você vai dar meia volta e subir a rua de novo.
Só que quem não vai estar aqui, parada na porta, te olhando, serei eu.
Já terei ido em frente e serão as minhas costas para você olhar agora.
Eu vou de vez enquanto cada passo seu só te traz pra trás, pra perto, pra mim.
Mas se eu te olhar agora, não estamos nem tão longe assim.
Apenas alguns braços que abraçam a sua cadeira nos separam.
Mãos que alisam seu joelho.
Olhos que só veem você.
Enquanto eu te olho, você pisca e sorri, encolhendo os ombros, como que pra me dizer:
Daqui a alguns anos quem sabe? Mas agora não.
O que se pode fazer? As coisas são como são. Não dá pra evitar.
E eu encolho os ombros do lado de cá e sorrio também, aquele riso amargo que engasga na garganta.
Finjo que sou paciente, que sou generosa, que compreendo e perdoo tudo.
Posso te dividir com trinta e sete outras só porque na verdade, eu não te divido com ninguém.
O você que eu gosto é só meu e ninguém mais conhece. Pena que ele some enquanto você bebe pra me esquecer, beija pra me magoar e fode querendo me foder mesmo.
Fazer o quê? As coisas são como são. Não dá pra evitar.
Daqui a quatro anos a gente vê. A gente se vê. E vemos se continuamos nos vendo.
E melhor ainda, se ainda no enxergamos.
Por ora eu vou apenas espremendo meu coração que já virou bagaço e já foi jogado fora.
Do amor nós dois já chupamos até o caroço e foi doce enquanto durou.
Pena que vez ou outra os fiapos ainda insistem em ficarem presos no meu dente.

Caixinha de música

O meu amor já nasceu fora de moda. Antigo. Ultrapassado.

Quando eu percebo, já quero cozinhar sua comida. Preparar seu almoço. Colocar o jantar na mesa e te olhar comer cada pedaço, sabendo que fui eu que fiz, e que coloquei sentimento em cada grão. Depois eu vou colocar a água para esquentar e te coar um café. Do jeito que você gosta. E aí eu me lembro que eu gosto de você gostar.

De ver você assoprar a xícara e me perguntar se tem algum doce pra acompanhar. E aí eu vou te trazer uma fatia do bolo que eu passei a tarde assando. Aquele seu favorito. Só pra te ver feliz. Depois eu quero me sentar no sofá e costurar suas meias. Dobrar suas camisas lavadas, que têm um cheiro bom. E lavar suas cuecas, passear com seu cachorro, levar sua mãe ao médico, transferir todo o meu dinheiro pra sua conta, te ensinar a andar de bicicleta só porque você nunca aprendeu, te ver pegar no sono e depois te esperar acordar, te dar beijo de bom dia antes de você escovar os dentes, deixar os meus cabelos curtos pra te agradar, te dar meu tempo, meus pensamentos, meus sonhos, meus planos, apagar meu passado na borracha e passar a limpo o meu presente quantas vezes forem necessárias só pra escrever o nosso futuro.

É que da boca pra fora eu sou jovem demais, mas por dentro guardo sentimentos que ainda tocam na vitrola e estão gravados em discos de vinil.

E você é aquele pôster na parede do meu quarto, daquele galã dos anos 80, daquela banda que já acabou. Você gira os ponteiros do meu relógio pra trás, me retrocede, me faz voltar ao tempo em que as pessoas viviam só para fazerem as outras felizes.

Gostar de você é isso. Acalma minhas revoluções, distrai meus ideais e me domestica. Basta te ver para querer colocar um anel no meu dedo, criar seus filhos, e varrer seu tapete, enquanto amarro o avental em volta da cintura.

Por isso é que basta te avistar do outro lado da rua, que eu atravesso, desvio a vista, tento fugir.

 Pena que sempre escorrego e caio de volta na palma da sua mão.

De língua

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 Quando conheci Felipe, ele falava baixinho, mansinho, ao pé do meu ouvido, com a vozinha e o  jeitinho certos para me dar aqueles arrepios que não tinham nada de diminutivo.
Muito pelo contrário, nosso tesão era todo superlativo, quase uma hipérbole.
Eu não cansava nunca de conjugar todos aqueles verbos junto com ele na minha cama de solteiro,  em todos os tempos possíveis, na voz ativa, passiva e com todas as interjeições que tínhamos  direito. Com Felipe não tinha essa de advérbio de modo, nem de lugar. De todo jeito era bom. Toda  hora podia.
Então eu gastava todos os adjetivos mais interessantes do meu vocabulário para ele saber que era  apreciado, sem ter a necessidade de fazer com que virássemos substantivos compostos.
Tínhamos uma ligação singular, mas nunca plural.  Afinal, éramos um caso reto, sem frescuras,  nem pronomes de tratamento.
Passamos anos escrevendo nosso texto apenas com frases curtas e objetos diretos, até que veio a  tal da reforma ortográfica.
Caíram os hífens, palavras juntaram-se e outras separaram-se para sempre.
E Felipe queria saber a gente iria finalmente derivar para nós.
Só que eu só falava a língua das coisas imperativas e desejava que ele continuasse sendo apenas o  meu vocativo preferido naquelas noites indeterminadas.
Não me entenda mal, é que eu não nasci para conjunções e esses tempos subjuntivos do amor, onde  tudo pode acontecer.
Então Felipe saiu por aí para procurar alguém que lhe completasse o sentido, enquanto eu  permaneci indefinida.
Mas a verdade é que eu e aquele sujeito nunca chegamos ao ponto final, apenas rabiscamos    reticências…
E de vez em quando, eu ainda me pego pensando se aquele pretérito mais-que-perfeito pode virar  futuro.

Preparando o salto

Um dia desses, de repente, tudo ficou cinza.
Olhei ao meu redor e me vi cercado, preso, encurralado por grades de ferro onde antes só existiam janelas.
Parei de assobiar aquela velha canção e não conseguia enxergar mais nada além da minha prisão. Apenas as cores do céu, lá no horizonte distante. Azul claro, laranja, vermelho e preto, cheio de estrelas.
Passava todo o meu tempo sonhando com o mundo lá fora. Imaginando a sensação do vento no meu rosto, eu quase tocando as nuvens e me sentindo mais leve que o ar.
Pensava em todos os lugares em que eu poderia chegar e nas aventuras que poderia viver e suspirava, porque eram só sonhos e eu nunca poderia alcançá-los.
Meu peito amargurado era só silêncio e vazio. Nenhuma esperança de me libertar conseguia germinar ali.
Até que, numa madrugada qualquer, em vez de dormir, abri os olhos e finalmente vi.
A porta estava aberta, revelando a saída da prisão. A liberdade. O espaço vazio. A imensidão.
Me aproximei e não consegui acreditar.
Ela nunca esteve fechada. Eu é que não havia conseguido enxergar durante todo esse tempo.
Nunca existiu gaiola. Nunca existiram grades. Apenas eu, enclausurado em mim mesmo, enquanto milhares de histórias e lugares inesquecíveis pacientemente aguardavam por mim. Por apenas um sopro de coragem para me levar adiante.
Mas depois de tanto tempo preso, eu não sabia se as minhas asas eram fortes o suficiente para tirar meu pés do chão e me deixar voar para longe daqui. Se eu deslizaria carregado pela brisa ou cairia no chão rumo ao meu nunca mais. Não existia rede de proteção, nem ninguém para me segurar. Minhas plumas se arrepiaram e pude sentir o vento me chamando. Apenas um sopro era suficiente.
Então eu estiquei minhas asas e saltei.
Abandonei as minhas grades de ferro e me lancei no vazio para me encontrar novamente.
Nunca mais prisão. Nunca mais lamento. Nunca mais silêncio.
Voo por entre as nuvens enquanto o céu vai tingindo-se de cor-de-rosa e o sol começa a nascer.
São tantas novas cores e sensações para conhecer, tantos lugares para desbravar.
Só que agora o meu caminho se estende como o céu acima da minha cabeça: indecifrável e cheio de possibilidades.
No meu peito agora soa uma nova música e eu assobio enquanto voo em direção ao infinito.

                                                                       “Vou passar como um santo mudo. Mirando o alto. Rindo. Preparando o salto. Deixando pra trás tudo. ” (Siba)