Mas não agora.

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Um segundo antes do meu coração virar pedra,

eu abri o peito e vi você

rasbicando com a unha no cimento ainda fresco:

“Em quinze  de novembro de dois mil e quatorze,

eu

estive

aqui.”

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Já me perguntaram o que você é.
E não foram poucas as vezes.
“Ele é teu namorado?”
“Ele é só teu amigo?”
“Ele é teu…?”
Mas eu só abano a cabeça e respondo que ninguém pertence a ninguém nessa vida.
Todo mundo é livre.
Não é assim?

Mas, pra mim mesma, quando eu tô sozinha e ninguém está olhando,
Eu sei exatamente o que você é.
Você é aquela coceira que eu sinto nas minhas veias e nas minhas terminações nervosas.
Dentro do meu sangue, quando ele fica circulando quente e ansioso.
Você é o frio na minha barriga e na minha espinha ao mesmo tempo.
Você é o que faz os pelinhos da minha nuca se arrepiarem, e eu minto dizendo que foi o vento que entrou pela janela aberta.
Você é aquela agonia que me dá toda vez que eu te olho e fico na beirinha de um abismo, sem saber se pulo ou não.
Dá tanta vontade de pular.
Mas eu tenho tanto medo.
Nunca pulo.
Mas você é o próprio abismo, me olhando lá de baixo e esperando eu ter coragem de ir na sua direção a qualquer momento.
Você são os seus braços sempre abertos, que ficam me chamando que nem um ímã.
Você é o seu sorriso meio vacilante, que nunca sabe se está indo longe demais e sempre fica no limite exato pra me fazer ficar imaginando o que existe por trás dele.
Existe algo por trás dele?
Acho que eu tô só imaginando.

Você é tantas coisas ao mesmo tempo.

Mas não é meu.

Ninguém pertence a ninguém nessa vida.
Todo mundo é livre.

Que pena.


Mas é que o amor, ela disse, é que nem sexta-feira:
A  gente passa tanto tempo esperando chegar, e quando chega,
acaba tão rápido que nem dá tempo de aproveitar direito.
Quando a gente vê, já chegou a segunda.
E lá vamos nós, enfrentar tediosas quartas e infinitas quintas até que a sexta resolva aparecer
de novo.
Então, eu disse, é isso? O amor? Esperar que a segunda nunca chegue? Ou viver esperando por uma sexta que nunca vem?
Não, ela disse, porque para nossa sorte, hoje é sexta. E só nos resta dar de ombros e aproveitar de olhos fechados.

Devagar.

Cada segundo como se fosse a última gota, tomando até o restinho.
Como se não existissem segundas-feiras.
E o mundo todo fosse uma eterna sexta.

E talvez…
Talvez seja.

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Quando você saiu pela porta, sem querer, querendo, a saudade entrou pela frestinha aberta.
Entrou, se esparramou no sofá, abriu uma cerveja e cruzou os pés em cima da mesinha de centro.
A mesinha de centro que a gente comprou junto, naquela vez que aconteceu aquele negócio, lembra?
Eu lembro.
Foi tão engraçado.
Você era engraçado.
Pena que a gente foi perdendo a graça.
Ela saiu junto com você pela porta.
Desde aquele dia eu não te vi mais.
A cidade é pequena e eu ainda ando pelos mesmos lugares.
Mas nunca mais te vi.
Engraçado, porque eu te vejo o tempo todo.
Em todo lugar que eu vou.
Escuto suas risadas, escuto sua voz, escuto você, como se tivesse aqui do meu lado.
Toda vez que eu uso a blusa verde ou o cabelo trançado.
Você foi embora pra ficar pra sempre aqui.
Mais do que você ficaria se realmente ficasse.
Provavelmente você iria embora, se ficasse.
Provavelmente.
Mas fui eu que fiquei.
Visto a blusa verde e tranço o cabelo, enquanto me esparramo no sofá e cruzo os pés em cima da mesinha de centro.
Talvez pegue uma cerveja.
Digo que não, mas sei que estou esperando você voltar a qualquer momento.
Comecei a sentir sua falta a partir do minuto em que você foi embora.
Você foi embora?
Ou é que fui?
Nós dois fomos.
E nós dois ficamos.
Com saudade.
Acho que quando você fechou a porta, deixou aberta uma frestinha aqui.
E eu ainda tô esperando você voltar por ela.
Essa história de ficar distante de você já perdeu a graça.
Eu perdi.
Te perdi.
Eu acho.
Não vou te pedir pra voltar.

Mas você vai?

Saudade é o que fica quando todo o resto já foi embora.
Inclusive a gente.


O meu amor já nasceu fora de moda. Antigo. Ultrapassado.

Quando eu percebo, já quero cozinhar sua comida. Preparar seu almoço. Colocar o jantar na mesa e te olhar comer cada pedaço, sabendo que fui eu que fiz, e que coloquei sentimento em cada grão. Depois eu vou colocar a água para esquentar e te coar um café. Do jeito que você gosta. E aí eu me lembro que eu gosto de você gostar.

De ver você assoprar a xícara e me perguntar se tem algum doce pra acompanhar. E aí eu vou te trazer uma fatia do bolo que eu passei a tarde assando. Aquele seu favorito. Só pra te ver feliz. Depois eu quero me sentar no sofá e costurar suas meias. Dobrar suas camisas lavadas, que têm um cheiro bom. E lavar suas cuecas, passear com seu cachorro, levar sua mãe ao médico, transferir todo o meu dinheiro pra sua conta, te ensinar a andar de bicicleta só porque você nunca aprendeu, te ver pegar no sono e depois te esperar acordar, te dar beijo de bom dia antes de você escovar os dentes, deixar os meus cabelos curtos pra te agradar, te dar meu tempo, meus pensamentos, meus sonhos, meus planos, apagar meu passado na borracha e passar a limpo o meu presente quantas vezes forem necessárias só pra escrever o nosso futuro.

É que da boca pra fora eu sou jovem demais, mas por dentro guardo sentimentos que ainda tocam na vitrola e estão gravados em discos de vinil.

E você é aquele pôster na parede do meu quarto, daquele galã dos anos 80, daquela banda que já acabou. Você gira os ponteiros do meu relógio pra trás, me retrocede, me faz voltar ao tempo em que as pessoas viviam só para fazerem as outras felizes.

Gostar de você é isso. Acalma minhas revoluções, distrai meus ideais e me domestica. Basta te ver para querer colocar um anel no meu dedo, criar seus filhos, e varrer seu tapete, enquanto amarro o avental em volta da cintura.

Por isso é que basta te avistar do outro lado da rua, que eu atravesso, desvio a vista, tento fugir.

 Pena que sempre escorrego e caio de volta na palma da sua mão.


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 Quando conheci Felipe, ele falava baixinho, mansinho, ao pé do meu ouvido, com a vozinha e o  jeitinho certos para me dar aqueles arrepios que não tinham nada de diminutivo.
Muito pelo contrário, nosso tesão era todo superlativo, quase uma hipérbole.
Eu não cansava nunca de conjugar todos aqueles verbos junto com ele na minha cama de solteiro,  em todos os tempos possíveis, na voz ativa, passiva e com todas as interjeições que tínhamos  direito. Com Felipe não tinha essa de advérbio de modo, nem de lugar. De todo jeito era bom. Toda  hora podia.
Então eu gastava todos os adjetivos mais interessantes do meu vocabulário para ele saber que era  apreciado, sem ter a necessidade de fazer com que virássemos substantivos compostos.
Tínhamos uma ligação singular, mas nunca plural.  Afinal, éramos um caso reto, sem frescuras,  nem pronomes de tratamento.
Passamos anos escrevendo nosso texto apenas com frases curtas e objetos diretos, até que veio a  tal da reforma ortográfica.
Caíram os hífens, palavras juntaram-se e outras separaram-se para sempre.
E Felipe queria saber a gente iria finalmente derivar para nós.
Só que eu só falava a língua das coisas imperativas e desejava que ele continuasse sendo apenas o  meu vocativo preferido naquelas noites indeterminadas.
Não me entenda mal, é que eu não nasci para conjunções e esses tempos subjuntivos do amor, onde  tudo pode acontecer.
Então Felipe saiu por aí para procurar alguém que lhe completasse o sentido, enquanto eu  permaneci indefinida.
Mas a verdade é que eu e aquele sujeito nunca chegamos ao ponto final, apenas rabiscamos    reticências…
E de vez em quando, eu ainda me pego pensando se aquele pretérito mais-que-perfeito pode virar  futuro.


─ Escreve sobre mim.

Eu estava naquela fase entre ter preguiça de abrir os olhos e ir acordando aos poucos, sem querer levantar, quando você disse isso. Minha cabeça estava encostada no seu peito, seu braço em volta da minha cintura e os lençóis embolados no canto da cama, por causa dessa sua mania de não se cobrir quando dorme.

Fiquei em silêncio e tentei fingir que não havia escutado.

─ Ei. Você ouviu? Escreve sobre mim, vai.

Dessa vez o seu pedido veio acompanhado de cutucões na minha barriga. Passamos cinco minutos numa luta entre cócegas, risadas e empurrões, até você segurar meu queixo e virar meu rosto para encarar o seu.

Tão bonito o seu rosto quando acorda. Fiquei mexendo no seu cabelo até ser a sua vez de fechar os olhos e sorrir.

─ Pra que você quer isso?

Perguntei bem baixinho, mais pra mim mesma do que pra você.

─ Isso? Isso é a coisa mais linda que você tem. Que você é. Além de outras trinta mil, claro.

Nessa hora você abriu os olhos e me observou tão sincero, tão desarmado, que se eu dispusesse de papel e caneta teria escrito algo ali mesmo. Como eu poderia dizer não pra você? Nunca consegui. Mas aí, como sempre, você fez uma piada para estragar a seriedade do momento.

─ E também meu aniversário tá chegando, e como eu sei que a viagem pra Tailândia teve que ser desmarcada, então…

Eu ri e bati de levinho na suas costas com o travesseiro. Devia ter deixado o assunto de lado e me levantado para ir tomar banho. Com certeza você teria esquecido essa bobagem. Mas como eu disse antes, ignorar seus desejos era quase impossível pra mim. Quase.

─ É que eu não posso escrever sobre você.

─ Por que não?

─ Porque tá tudo bem entre a gente. Tudo maravilhoso. E eu só escrevo textos tristes. Só falo sobre corações partidos, mágoas e despedidas. Só posso escrever sobre você depois que você partir meu coração. É o que eu sempre faço.

─ Eu não vou fazer nada disso. Mas vamos supor que eu faça… Aí sim você escreve sobre mim?

─ Isso.

─ Ok. Mas eu não vou fazer.

─ Não. Claro que não. E eu nunca vou escrever um texto sobre você.

─ Não. Nunca.

 Nunca.