Mas não agora.

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Todo mês eu faço uma lista e colo na parede:
“A lista do nunca mais”.
Nunca mais cortar a franja sozinha, que dá desastre.
Nunca mais misturar uma bebida com a outra, que faz mal pro fígado.
Nunca mais espremer o tubo da pasta de dente quando já acabou, que não sai mais nada dali.
Nunca mais esquecer de ligar pra minha mãe, que dá saudade.
Nunca mais acabar o dinheiro antes de acabar o mês, que já prejuízo.
E principalmente,
Nunca mais ligar pra ele.
Ver ele.
Sentir o perfume da nuca dele.
Colocar minha língua junto da língua dele.
Dormir na casa dele.
Nunca mais ele.
Nunca mais.
Todo mês eu rasgo a lista antiga e faço uma nova.
Os nunca mais todos acabam virando nunca mais pra sempre.
Menos o último item.
Que não tem jeito de sair
nem da lista
nem de mim.

E só vai virar nunca mais,
quando eu colocar ele na lista
de nunca mais
dizer que vai ser nunca mais.

 

doitagain


Dizem que a pior ilusão de todas é a ortográfico-amorosa. Mas eu tenho que dizer que você escreve tudo certinho, mesmo que não fale a minha língua.

Mas de quem será que é a culpa? Se bem ali, no meio daquele porão sujo e enfumaçado, onde não dava pra ver quase ninguém e eu só fui porque era o único lugar que ainda vendia cerveja às 3 da manhã de uma quarta-feira, bem ali perto do bar, você gritou no meu ouvido pra perguntar se eu tava curtindo o som. Não tava. Era alto demais, incompreensível demais, gritado demais. Mas por algum motivo desconhecido pela humanidade, eu, que só gosto de bossa nova e samba cantado baixinho, na beira do ouvido, acenei com a cabeça e disse que tava. Que idiota.

Devia ter percebido logo de cara que a sua vibe era mesmo essas coisas que não dá pra entender e fugido. Mas não. Fiquei. Logo eu, que só sei fugir, fiquei por ali, segurando a cerveja gelada na mão, de cabelo trançado e vestido comprido, te olhando enquanto você apagava o cigarro com o seu all star branco preferido e sorria através da barba cerrada ruiva. Cara, que sorriso era aquele.

E quando a sua mão se entrelaçou na minha, já de manhã, quando o sol já estava querendo dar as caras por cima dos prédios e arranha-céus, você me disse: eu adoro voltar pra casa quando o dia tá nascendo, aproximadamente no mesmo minuto em que eu estava pensando: eu odeio.
Quer dizer, olha só pra nós. Eu vivo à base de cerveja, você, de uísque. Discordamos sobre política, religião, futebol, o Papa, o BBB, Star Wars e o quarteirão com queijo. Isso não vai levar a lugar nenhum, meus amigos dizem. Vocês não são Romeu e Julieta, muito menos Eduardo e Mônica, minha mãe me avisa pelo skype. A gente não harmoniza, a gente não se completa, a gente não se encaixa.

Porque somos ambas as peças do cantinho do quebra-cabeça, só que de pontas opostas. Somos dois yangs, dois potes de feijão achando que são sorvetes de flocos. Eu sei pela culpa que bate no topo do meu estômago toda vez que eu volto pra casa, de madrugada, depois de ter passado horas no seu apê tão distante do meu. Amar você é ter aquela sensação de ter escapado da dieta e me esbaldado em uma torta de brigadeiro todo dia. É como ficar de ressaca dia de semana ou voltar tarde pra casa dia de domingo. Errado, simplesmente errado. E não do jeito certo de errado. Do jeito errado mesmo.

Eu escrevi esse texto pra não esquecer disso. E também pra te dizer que eu, que sempre fui careta, finalmente achei um vício que eu não consigo largar e que me destrói aos pouquinhos, de um jeito gostoso e culpado, mastigando minha sanidade e satisfazendo minhas vontades mais insanas. Mas, como todos os vícios, vale o sofrimento e todas as bad trips só por aqueles cinco minutinhos de delírio, de imagens coloridas e de sair de mim.

E aí seus braços me puxam de volta pra cama e me enrolam feito edredom, quando eu ligo o soneca do despertador do celular e digo pra mim mesma: só mais cinco minutinhos. Só mais cinco minutinhos antes de ter que acordar e encarar o mundo real. Depois disso, eu juro que vou levantar daqui e te deixar de vez. Só mais cinco minutinhos. Eu juro.


diabranco

Se eu pudesse te dizer alguma coisa hoje, qualquer coisa, eu diria isso: não saia de casa. Não coloque aquela camisa vermelha, não use aquele seu perfume, mas principalmente, não saia de casa. Não desça do prédio quando o Rafa estiver lá embaixo, não bebam cerveja no ônibus, não venham pro carnaval de Olinda.

Porque em alguma daquelas ladeiras, bem ali nos Quatro Cantos ou na Ribeira, você nem sabe ainda, mas a gente vai se esbarrar no meio daquela multidão dançando frevo. E o Rafa vai beijar a Bia, seu amigo beijando a minha amiga e os dois deixando a gente sozinho, juntos.

 E enquanto seguramos vela, vamos nos olhar como quem diz e agora? E agora o quê? E agora o que a gente faz? Vamo beber, é carnaval, né. Vamo. Tais bebendo o quê? Cerveja. Eu também, toma aqui o resto da latinha. Massa. Tão demorando eles, né? Pois é. E se a gente fizesse que nem eles? Eita. E é? É. Bora? Olhe… Oxe, é carnaval! Que besteira. Hahahaha. Bestinha todo. Não ria, não. Venha cá. Pra quê? Venha me dar um beijo. É? É. Tá bom, eu vou. Venha.

 E se eu não quiser mais parar de te beijar? Vai ter que querer, meu filho, é carnaval. É, né? É. Mas se eu não quiser? Vai ter que querer. Vai ter que querer.

 E aí o primeiro beijo vai virar outros mil beijos, bem ali no meio daquela massa de gente colorida, fantasiada, naquela rua cheia de pedras que já viram tantos beijos, nós fomos mais um. Mais vários. Viramos uma coisa só, dividindo a multidão em duas bandas, um colado no outro naquele calor, no meio daquela festa e da música, e obeijo tinha gosto de cerveja gelada, de confete, de agitação. Era o sábado de Zé Pereira, e entre ladeira e ladeira, tantos blocos passaram pela gente levando seusestandartes, tantas orquestras com o ritmo acelerado feito nosso coração, tantos sorrisos mascarados, tantos brilhos nos olhos, tantos gritos emocionados cantando o Hino do Elefante. O carnaval passou pela gente, bem na nossa cara, e a gente não viu. Quando fomos ver, já era terça de noite e a quarta de cinzas tava só contando os minutos pra chegar e acabar com a festa.

Alceu agora tá encerrando o carnaval no Marco Zero, e eu, de flor no cabelo, você com a barba por fazer , nós dois chorando porque estava tudo acabando. Ninguém mais jogava confete, ninguém mais sorria, todo mundo parecia estar se despedindo de alguém ou de alguma coisa. Ou de tudo ao mesmo tempo. O carnaval estava acabando, eu e você também, e lá da Rua do Bom Jesus dava pra ouvir os últimos acordes de Quando fevereiro chegar. Agora só no ano que vem e quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente. Mas eu achava que ia morrer ali mesmo, sentada na sarjeta, te olhando limpar o rosto das últimas lágrimas. A gente não ia se ver nunca mais e isso parecia impossível.

Porque era só fechar meus olhos pra lembrar tudo de novo, a gente se beijando e rindo debaixo do sol quente, a sua camisa vermelha, meu batom vermelho borrado, e Vassourinhas tocando numa ladeira ali perto. Sem você, não ia ter carnaval. As alfaias iam parar de bater, os músicos iam voltar pra casa, iam mandar tirar o Galo daponte e cancelar os quatro dias. Mas pior do que isso é que agora você ia embora de vez e todo dia agora ia quarta de cinzas, pra sempre.

O sol já está quase nascendo e eu ainda não consegui te soltar. Já parei de chorar, mas não posso te deixar ir. Esse ano nem choveu na terça de noite, sempre chove. É o mundo se lamentando porque o carnaval acabou. Não quero que você vá. Mas vou ter que querer. Vou ter que querer. Nas casas alugadas de Olinda, os gringos estão arrumando as mochilas agora e saindo pela rua levando seus colchões debaixo do braço. É colocar o pé na rua que aslembranças viram saudade na hora. Mesmo que eles voltem todo ano, nenhum carnaval vai ser esse carnaval. Nós dois também, nunca mais seremos os mesmos.

 Olinda agora respira entre soluços, porque é hora de guardar os enfeites, se despedir dos amigos e dos amores eternos de quatro dias, de curar a ressaca e voltar pra vida normal que não tem nem metade do brilho, metade da cor, metade do frevo que tinha antes.

 Não quero que não seja mais carnaval. Não quero que meu pra sempre com você termine agora.

 Mas vou ter que querer.

 Por isso, eu lhe digo logo: não saia de casa hoje, sábado de Zé Pereira. Não vá pra Olinda. Não me encontre. Não deixe Rafa e Bia se beijarem. Não deixe o carnaval acontecer, nem a quarta de cinzas chegar tão depressa, só pra contrariar. Não sorria pra mim desse seu jeito. Não divida sua cerveja comigo. Não me chame pra lhe beijar debaixo do sol de quarenta graus e no meio da multidão infinita. Não faça nada disso, não, seu cabra. E não me peça pra fazer.

 Porque se você me pedir, e me olhar, e eu te olhar, e meu coração fizer um maracatu aqui dentro do peito, eu faço tudo de novo.


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Quando você saiu pela porta, sem querer, querendo, a saudade entrou pela frestinha aberta.
Entrou, se esparramou no sofá, abriu uma cerveja e cruzou os pés em cima da mesinha de centro.
A mesinha de centro que a gente comprou junto, naquela vez que aconteceu aquele negócio, lembra?
Eu lembro.
Foi tão engraçado.
Você era engraçado.
Pena que a gente foi perdendo a graça.
Ela saiu junto com você pela porta.
Desde aquele dia eu não te vi mais.
A cidade é pequena e eu ainda ando pelos mesmos lugares.
Mas nunca mais te vi.
Engraçado, porque eu te vejo o tempo todo.
Em todo lugar que eu vou.
Escuto suas risadas, escuto sua voz, escuto você, como se tivesse aqui do meu lado.
Toda vez que eu uso a blusa verde ou o cabelo trançado.
Você foi embora pra ficar pra sempre aqui.
Mais do que você ficaria se realmente ficasse.
Provavelmente você iria embora, se ficasse.
Provavelmente.
Mas fui eu que fiquei.
Visto a blusa verde e tranço o cabelo, enquanto me esparramo no sofá e cruzo os pés em cima da mesinha de centro.
Talvez pegue uma cerveja.
Digo que não, mas sei que estou esperando você voltar a qualquer momento.
Comecei a sentir sua falta a partir do minuto em que você foi embora.
Você foi embora?
Ou é que fui?
Nós dois fomos.
E nós dois ficamos.
Com saudade.
Acho que quando você fechou a porta, deixou aberta uma frestinha aqui.
E eu ainda tô esperando você voltar por ela.
Essa história de ficar distante de você já perdeu a graça.
Eu perdi.
Te perdi.
Eu acho.
Não vou te pedir pra voltar.

Mas você vai?

Saudade é o que fica quando todo o resto já foi embora.
Inclusive a gente.


blog

Quando estávamos quase dormindo, com os rostos encostados e tão próximos quanto alguém poderia estar de outro ser humano, eu me senti em paz. Dessa vez não parecia errado chegar tão perto assim. Na verdade, parecia o lugar certo para estar, na hora certa, nos braços certos. Comecei a divagar sobre conjunções estelares, destino, almas gêmeas e o que mais se pensa nessas horas, quando a gente fica tão cafona que nem se reconhece mais.

Vi seus cílios se entrelaçando e sua respiração ficando mais profunda, e quase sem conseguir evitar, sussurrei: queria que esse momento durasse pra sempre.

Na mesma hora, ela abriu os olhos, as íris castanhas cheias de risquinhos me encarando, as unhas todas cobertas de esmalte vermelho descascado arranhando de leve o meu rosto, quando disse:

“Todos os momentos duram pra sempre. Isso não quer dizer que eles tenham que se estender infinitamente, como se estivéssemos presos num disco arranhado, repetindo a mesma música toda hora. Eu sempre vou me lembrar desse exato segundo, mesmo anos depois que a gente acabe. Não me olha assim, você sabe que a gente vai acabar. Pode demorar décadas. Pode ser daqui a pouco. Mas em algum momento, o amor vai ficar e nós vamos embora. Passando direto, olhando pra frente. E não vamos precisar ser iguais a todo mundo que diz ‘eu poderia ter te amado pra sempre’. Para ser pra sempre, não precisa durar pra sempre. Precisa só… ser. E nós já fomos. Estamos sendo. Seremos. E isso basta.

Nada dura pra sempre.

Nada.”

Ela era dessas. Fazia discursos intermináveis antes de pegar no sono e na manhã seguinte, não lembrava de mais nada. Me dava um beijo de bom dia e dizia que me amava.
E eu acreditava, porque ela só falava a verdade, mesmo que esquecesse depois.

Mas naquela noite, eu tenho que dizer que ela mentiu.

Alguns momentos, por mais bonitos que sejam, passam despercebidos, esquecíveis, descartáveis. Mas algumas pessoas, com suas unhas descascadas, íris castanhas cheias de risquinhos e vozes cheias de discursos sobre o amor…

Algumas pessoas duram pra sempre.


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Porra.
Como eu sinto saudades de você.

Quando, naquele dia, há três anos atrás, você curtiu a minha foto mais antiga, eu nunca imaginei  que um dia fôssemos mudar nosso status de relacionamento juntos, de
solteiros, para casados. E agora, enquanto eu espero para nos falarmos pelo skype, cada um de  um lado do oceano, unidos apenas por uma conexão sem fio, não consigo
deixar de lembrar desses últimos três anos. Cada vez que você publicou no meu mural um link de música do youtube, com letras que pareciam ter sido escritas pra gente,
e eu respondia deixando uma inbox na madrugada, para que o meu ‘bom dia’ fosse a primeira coisa que você visse quando acordasse. Eu sei que até hoje você não me perdoa
por ter curtido aquela foto de sunga do Markinhos, mesmo que eu tenha jurado que foi sem querer. Mas olha, também não era fácil engolir a raiva quando você visualizava
minhas mensagens no whatsapp e demorava horas pra responder. E ter que aguentar as suas fotos de noitadas em bares com aqueles seus amigos então? E fingir que não me
importava, que não tava com ciúme. Mas tudo passava quando eu via aqueles seus tweets de domingo à noite: “a falta que a pessoa certa faz”. E eu sorria e sabia que não
precisava de mention, porque eram todos pra mim. Assim com os milhares de posts apaixonados do meu blog. Todos pra você, do começo ao fim. Daqui a exatos 6 segundos eu vou te ver pela tela, pela última vez antes de você voltar pra perto de mim. Internet é bom, mas não dá pra matar as saudades de verdade. Ela finge que morre, mas volta, assim que eu desligo o computador. Não tem bateria que dê conta, wifi, nem 3G que seja suficiente. Eu te amo. Mas não vou mandar e-mail, não vou publicar, não vou compartilhar. Vou guardar pra te dizer olhando dentro do seu olho, de pertinho, de verdade: porra, como eu senti saudades de você.

Internet é bom, mas não é suficiente.


A fome infinita das crianças de olhares tristes na África é aterradora. Perder dinheiro deixa qualquer um puto. Reginaldo Rossi morreu sexta e isso é triste. Bati meu dedão na quina da mesinha e estou sentindo a dor até agora. A roubalheira do mensalão e a cara de pau dos políticos faz qualquer brasileiro se revoltar. Meu coração se encolhe sempre que vejo alguma notícia sobre jovens vítimas de balas perdidas e acidentes de automóveis. Em Boa Viagem, não dá pra nadar até o fundo naquele mar tão bonito porque tem tubarão e todo mundo morre de medo dos ataques. Chorei até de manhã lendo aquele livro com o final tão trágico. Ninguém gosta de ficar de recuperação e ter as férias bem curtinhas. Insônia é uma merda, ressaca é foda, e ler ‘transação não autorizada’ é o pior jeito de tomar no cu. Ver uma mulher ser apedrejada pelo marido no Irã é aterrador. Quando o Carnaval cai em fevereiro é tão chato. Ver o Brasil perder na Copa do Mundo também. Flagrar sua mãe chorando então, nem se fala. Péssimo. Ter que acordar cedo no sábado seria a pior coisa do mundo se não existissem as segunda-feiras ensolaradas e as sextas chuvosas. Ir ao cinema sozinha sempre me deixa deprimida. Mais ou menos como quando leio tantas notícias sobre assaltos, estupros e homicídios aqui na cidade. Minha enxaqueca não passa de jeito nenhum. Acabou o requeijão. Tenho pouco dinheiro na conta. Sinto saudades de gente que não vou ver nunca mais. E odeio ficar sozinha nos sábados à noite quase tanto quanto odeio preconceito de qualquer tipo e calças brancas.

Tudo isso é ruim, mas nada no mundo se compara ao que eu senti naquele minuto em que você me disse:

“A gente é o oposto um do outro.
Enquanto eu não amo ninguém
Você ama todo mundo. ”

Depois desse dia, você virou todo mundo.
E eu virei ninguém.