Mas não agora.

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Todo mês eu faço uma lista e colo na parede:
“A lista do nunca mais”.
Nunca mais cortar a franja sozinha, que dá desastre.
Nunca mais misturar uma bebida com a outra, que faz mal pro fígado.
Nunca mais espremer o tubo da pasta de dente quando já acabou, que não sai mais nada dali.
Nunca mais esquecer de ligar pra minha mãe, que dá saudade.
Nunca mais acabar o dinheiro antes de acabar o mês, que já prejuízo.
E principalmente,
Nunca mais ligar pra ele.
Ver ele.
Sentir o perfume da nuca dele.
Colocar minha língua junto da língua dele.
Dormir na casa dele.
Nunca mais ele.
Nunca mais.
Todo mês eu rasgo a lista antiga e faço uma nova.
Os nunca mais todos acabam virando nunca mais pra sempre.
Menos o último item.
Que não tem jeito de sair
nem da lista
nem de mim.

E só vai virar nunca mais,
quando eu colocar ele na lista
de nunca mais
dizer que vai ser nunca mais.

 

doitagain


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Quando estávamos quase dormindo, com os rostos encostados e tão próximos quanto alguém poderia estar de outro ser humano, eu me senti em paz. Dessa vez não parecia errado chegar tão perto assim. Na verdade, parecia o lugar certo para estar, na hora certa, nos braços certos. Comecei a divagar sobre conjunções estelares, destino, almas gêmeas e o que mais se pensa nessas horas, quando a gente fica tão cafona que nem se reconhece mais.

Vi seus cílios se entrelaçando e sua respiração ficando mais profunda, e quase sem conseguir evitar, sussurrei: queria que esse momento durasse pra sempre.

Na mesma hora, ela abriu os olhos, as íris castanhas cheias de risquinhos me encarando, as unhas todas cobertas de esmalte vermelho descascado arranhando de leve o meu rosto, quando disse:

“Todos os momentos duram pra sempre. Isso não quer dizer que eles tenham que se estender infinitamente, como se estivéssemos presos num disco arranhado, repetindo a mesma música toda hora. Eu sempre vou me lembrar desse exato segundo, mesmo anos depois que a gente acabe. Não me olha assim, você sabe que a gente vai acabar. Pode demorar décadas. Pode ser daqui a pouco. Mas em algum momento, o amor vai ficar e nós vamos embora. Passando direto, olhando pra frente. E não vamos precisar ser iguais a todo mundo que diz ‘eu poderia ter te amado pra sempre’. Para ser pra sempre, não precisa durar pra sempre. Precisa só… ser. E nós já fomos. Estamos sendo. Seremos. E isso basta.

Nada dura pra sempre.

Nada.”

Ela era dessas. Fazia discursos intermináveis antes de pegar no sono e na manhã seguinte, não lembrava de mais nada. Me dava um beijo de bom dia e dizia que me amava.
E eu acreditava, porque ela só falava a verdade, mesmo que esquecesse depois.

Mas naquela noite, eu tenho que dizer que ela mentiu.

Alguns momentos, por mais bonitos que sejam, passam despercebidos, esquecíveis, descartáveis. Mas algumas pessoas, com suas unhas descascadas, íris castanhas cheias de risquinhos e vozes cheias de discursos sobre o amor…

Algumas pessoas duram pra sempre.


Estamos a quatro anos de distância e dois mil e dezessete whiskies.

Quatro longos anos que vão te fazer morrer de arrependimento e sofrer de saudade de mim. Da gente.
Querer voltar atrás.
Mas agora, nesses exatos zero vírgula cinco segundos, quem fica pra trás sou eu, enquanto você sempre levanta e vai embora, na minha frente, que é pra eu ver as suas costas sumindo enquanto viram a esquina e eu ainda estou na calçada, andando devagar que é pra te deixar ir, mesmo querendo que você ficasse.
Eu sei que daqui a quatro anos você vai dar meia volta e subir a rua de novo.
Só que quem não vai estar aqui, parada na porta, te olhando, serei eu.
Já terei ido em frente e serão as minhas costas para você olhar agora.
Eu vou de vez enquanto cada passo seu só te traz pra trás, pra perto, pra mim.
Mas se eu te olhar agora, não estamos nem tão longe assim.
Apenas alguns braços que abraçam a sua cadeira nos separam.
Mãos que alisam seu joelho.
Olhos que só veem você.
Enquanto eu te olho, você pisca e sorri, encolhendo os ombros, como que pra me dizer:
Daqui a alguns anos quem sabe? Mas agora não.
O que se pode fazer? As coisas são como são. Não dá pra evitar.
E eu encolho os ombros do lado de cá e sorrio também, aquele riso amargo que engasga na garganta.
Finjo que sou paciente, que sou generosa, que compreendo e perdoo tudo.
Posso te dividir com trinta e sete outras só porque na verdade, eu não te divido com ninguém.
O você que eu gosto é só meu e ninguém mais conhece. Pena que ele some enquanto você bebe pra me esquecer, beija pra me magoar e fode querendo me foder mesmo.
Fazer o quê? As coisas são como são. Não dá pra evitar.
Daqui a quatro anos a gente vê. A gente se vê. E vemos se continuamos nos vendo.
E melhor ainda, se ainda no enxergamos.
Por ora eu vou apenas espremendo meu coração que já virou bagaço e já foi jogado fora.
Do amor nós dois já chupamos até o caroço e foi doce enquanto durou.
Pena que vez ou outra os fiapos ainda insistem em ficarem presos no meu dente.


O meu amor já nasceu fora de moda. Antigo. Ultrapassado.

Quando eu percebo, já quero cozinhar sua comida. Preparar seu almoço. Colocar o jantar na mesa e te olhar comer cada pedaço, sabendo que fui eu que fiz, e que coloquei sentimento em cada grão. Depois eu vou colocar a água para esquentar e te coar um café. Do jeito que você gosta. E aí eu me lembro que eu gosto de você gostar.

De ver você assoprar a xícara e me perguntar se tem algum doce pra acompanhar. E aí eu vou te trazer uma fatia do bolo que eu passei a tarde assando. Aquele seu favorito. Só pra te ver feliz. Depois eu quero me sentar no sofá e costurar suas meias. Dobrar suas camisas lavadas, que têm um cheiro bom. E lavar suas cuecas, passear com seu cachorro, levar sua mãe ao médico, transferir todo o meu dinheiro pra sua conta, te ensinar a andar de bicicleta só porque você nunca aprendeu, te ver pegar no sono e depois te esperar acordar, te dar beijo de bom dia antes de você escovar os dentes, deixar os meus cabelos curtos pra te agradar, te dar meu tempo, meus pensamentos, meus sonhos, meus planos, apagar meu passado na borracha e passar a limpo o meu presente quantas vezes forem necessárias só pra escrever o nosso futuro.

É que da boca pra fora eu sou jovem demais, mas por dentro guardo sentimentos que ainda tocam na vitrola e estão gravados em discos de vinil.

E você é aquele pôster na parede do meu quarto, daquele galã dos anos 80, daquela banda que já acabou. Você gira os ponteiros do meu relógio pra trás, me retrocede, me faz voltar ao tempo em que as pessoas viviam só para fazerem as outras felizes.

Gostar de você é isso. Acalma minhas revoluções, distrai meus ideais e me domestica. Basta te ver para querer colocar um anel no meu dedo, criar seus filhos, e varrer seu tapete, enquanto amarro o avental em volta da cintura.

Por isso é que basta te avistar do outro lado da rua, que eu atravesso, desvio a vista, tento fugir.

 Pena que sempre escorrego e caio de volta na palma da sua mão.


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 Quando conheci Felipe, ele falava baixinho, mansinho, ao pé do meu ouvido, com a vozinha e o  jeitinho certos para me dar aqueles arrepios que não tinham nada de diminutivo.
Muito pelo contrário, nosso tesão era todo superlativo, quase uma hipérbole.
Eu não cansava nunca de conjugar todos aqueles verbos junto com ele na minha cama de solteiro,  em todos os tempos possíveis, na voz ativa, passiva e com todas as interjeições que tínhamos  direito. Com Felipe não tinha essa de advérbio de modo, nem de lugar. De todo jeito era bom. Toda  hora podia.
Então eu gastava todos os adjetivos mais interessantes do meu vocabulário para ele saber que era  apreciado, sem ter a necessidade de fazer com que virássemos substantivos compostos.
Tínhamos uma ligação singular, mas nunca plural.  Afinal, éramos um caso reto, sem frescuras,  nem pronomes de tratamento.
Passamos anos escrevendo nosso texto apenas com frases curtas e objetos diretos, até que veio a  tal da reforma ortográfica.
Caíram os hífens, palavras juntaram-se e outras separaram-se para sempre.
E Felipe queria saber a gente iria finalmente derivar para nós.
Só que eu só falava a língua das coisas imperativas e desejava que ele continuasse sendo apenas o  meu vocativo preferido naquelas noites indeterminadas.
Não me entenda mal, é que eu não nasci para conjunções e esses tempos subjuntivos do amor, onde  tudo pode acontecer.
Então Felipe saiu por aí para procurar alguém que lhe completasse o sentido, enquanto eu  permaneci indefinida.
Mas a verdade é que eu e aquele sujeito nunca chegamos ao ponto final, apenas rabiscamos    reticências…
E de vez em quando, eu ainda me pego pensando se aquele pretérito mais-que-perfeito pode virar  futuro.


Eu vou ou fico em casa? Tomo coragem ou tomo aquele Cabernet 1975 guardado no armário? Invento uma desculpa ou só dou uma passadinha? Vou de lingerie sexy ou com a que eu tô mesmo? Nunca se sabe, né? Salto ou rasteira? Vestido ou jeans? Batom rosinha discreto ou AQUELE vermelho? E se ele não estiver lá? Mas e pior, se ele estiver? Chego mais cedo ou atraso um pouco? Cumprimento ele primeiro ou por último? Abraço ou um beijinho no rosto? Aceno de longe? Falo com a namorada dele? Respondo se falar comigo ou ignoro educadamente? Vou ao banheiro tirar metade do batom ou fico sentada e deixo pra lá? Foi o vinho que acelerou meu coração desse jeito? Encaro mesmo ou finjo que nem me lembro que ele está aqui? Converso com o pessoal ou pago de misteriosa mexendo no celular? Digo que vou pra outro lugar, por isso estou tão arrumada? Digo que vim só dar uma passada e tenho outro compromisso? Vou mesmo me encontrar com o pessoal do trabalho em outro bar ou vou pra casa chorar e tomar mais vinho? Peço mais uma taça? Bebo devagar pra não dar vexame ou rápido pra parar de me incomodar? Me despeço dele ou dou um boa noite geral? Falo com todo mundo e ignoro de propósito? Vou andando até o ponto de táxi da esquina com esses saltos? Tiro os sapatos ou vou devagarzinho pra não tropeçar? Saio correndo e finjo que não ouvi ele me chamando? Ou viro e ouço o que ele tem pra falar? E se ele estiver com a namorada? E se eles estiverem indo embora também? E se eu me arrepender de virar? E se a namorada dele aparece e ouve o que ele tá me falando agora? Puxo o braço ou coloco a mão em cima da dele? Vou me arrepender disso? Vou ter coragem de dar as costas de novo a ele? Vou conseguir parar de chorar dentro do táxi antes de chegar em casa? Vou te ver descendo de outro táxi e parando em frente ao meu apartamento? Enxugando os olhos e sorrindo pra mim, enquanto diz que ela não era namorada, era só uma amiga, mais uma das suas milhares de amigas? E que não aguentava mais ter me perdido de vista e havia esperado esse dia há muito tempo?

Vou finalmente te fazer aquela pergunta que ficou engasgada há dois anos e podia ter acabado com todas essas outras? Vou.

Mas antes que eu abra a boca, você ajoelha e faz a sua.

E os taxistas, o trânsito, as pessoas, os passarinhos e a rua inteira se calam para ouvir enquanto eu finalmente deixo de perguntar e começo a responder.


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Sabe, naquele minuto em que você passou do meu lado e sorriu pra mim, o mundo ao meu redor desacelerou e começou a girar em câmera lenta.

Era uma sexta-feira e o expediente já havia acabado. Juntei meus papéis e peguei minha bolsa enquanto te espiava de longe. Antes de me virar para ir embora, consegui enxergar você parado no corredor por um milésimo de segundo. Mas o que eu não vi, enquanto caminhava devagar para o elevador, foi o momento decisivo em que você parou, pensou e começou a correr para me alcançar.

A cena se desenrolou como num filme: você corria em slow motion, enquanto Something, dos Beatles, tocava na trilha sonora. A câmera se dividia entre acompanhar sua corrida e me filmar de costas, esperando o elevador chegar ao andar. Sabe como é, para aumentar a expectativa de quem estivesse assistindo àquela sequência. Então a luz acendeu, as portas se abriram e eu consegui colocar a ponta do pé dentro do elevador no exato momento em que você segurou o meu ombro.

A música parou e eu me virei para ouvir você falar, enquanto tomava fôlego: “─ Quer sair comigo?” O meu sorriso largo foi a resposta que você esperava.

Fomos para um barzinho ali perto, tomar cerveja barata e dividir um prato caríssimo de camarão. E dividimos os cansaços do escritório, alguns sonhos e muitos planos para o futuro. Depois dividimos a conta e o táxi para voltar pra casa. Minha casa era mais perto do que a sua, mas quando eu ia sair do táxi,  você se aproximou e me beijou, enquanto o taxista aumentava a música no som do carro, que por coincidência era Something. Dá para acreditar numa coisa dessas? Dentre as milhares de sensações que tive naquela hora, só conseguia pensar: “finalmente.”Daí pra frente vieram os gostos parecidos, as piadas que só nós entendíamos e principalmente, o gosto de gostar do que estava acontecendo. Não demoramos muito para assumirmos o relacionamento para o pessoal do escritório, que já esperava que isso acontecesse desde sempre. Acontece que nós éramos uma combinação perfeita, dessas que só acontecem de cem em cem anos. Como queijo e goiabada, rede e praia, café e chocolate. Éramos bons separados, mas deliciosos juntos.

Resolvemos oficializar e morar juntos, já que vivíamos no apartamento um do outro e não dava vontade de ir embora nunca. Um dia paramos de fingir que existia outro lugar onde quiséssemos estar. Nossa casa era de fato, a nossa cara. Meus livros na estante, seus quadros pendurados na sala. Um buldogue velho e ranzinza pra cuidar, um bom sofá, canecas combinando e uma caixa de filmes antigos para assistir, daquele nosso diretor predileto. Depois viriam as crianças, que teriam seus olhos escuros e o meu sorriso rasgado. Nós quatro poderíamos brincar de guerra de água no banheiro, ler juntos e assistir desenhos animados no sábado de manhã. E o meu amor por você só ia se multiplicar e se espalhar naquelas paredes, gastando até eu achar que havia acabado. Com certeza iríamos brigar falando baixo, para não acordar as crianças. Até você me trazer bolo de limão na cama e pedir desculpas improvisando uma música engraçada no violão.

Para resumir, eu diria que “era pra ser”, “estava escrito”, e todas essas frases clichês e idiotas que a gente usa quando quer explicar que gosta muito de alguém.

Poderia ter sido assim. Nós teríamos sido felizes. E ainda podemos ser.

Se agora, enquanto eu te olho sorrir e andar para o corredor, enquanto imagino todas essas coisas que nos aguardam, essa história de amor escrita por mim mesma durante esse minuto, se você apenas parar para pensar. Se você me olhar de novo e conseguir enxergar esse futuro que não aguenta mais esperar para acontecer, essa vida que pode ser nossa, basta você querer. Agora mesmo, enquanto você para, eu prendo minha respiração e conto os segundos até você entender que eu sou perfeita para ser imperfeita com você. Que eu estive aqui, esperando para finalmente ser seu par nesse filme que eu já assisti cem mil vezes dentro da minha cabeça. Imaginei cada fala, cada sorriso, cada close que a câmera dava nos seus olhos, cada beijo nosso enquanto os créditos subiam na tela.

Mas dessa vez, a sua hesitação durou menos do que um segundo. E você continuou pelo corredor até eu não conseguir mais te ver, com meus olhos embaçados de lágrimas.

Arrumei os papéis, peguei a minha bolsa e esperei pelo elevador sozinha. Ainda olhei para trás uma última vez, só para ver se quem sabe você não havia escrito um roteiro só seu. Mas os únicos passos ali eram os meus, entrando no elevador quando a luz acendeu e fechando os olhos, justamente quando Something começava a tocar ali por perto.