Mas não agora.

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Todo mês eu faço uma lista e colo na parede:
“A lista do nunca mais”.
Nunca mais cortar a franja sozinha, que dá desastre.
Nunca mais misturar uma bebida com a outra, que faz mal pro fígado.
Nunca mais espremer o tubo da pasta de dente quando já acabou, que não sai mais nada dali.
Nunca mais esquecer de ligar pra minha mãe, que dá saudade.
Nunca mais acabar o dinheiro antes de acabar o mês, que já prejuízo.
E principalmente,
Nunca mais ligar pra ele.
Ver ele.
Sentir o perfume da nuca dele.
Colocar minha língua junto da língua dele.
Dormir na casa dele.
Nunca mais ele.
Nunca mais.
Todo mês eu rasgo a lista antiga e faço uma nova.
Os nunca mais todos acabam virando nunca mais pra sempre.
Menos o último item.
Que não tem jeito de sair
nem da lista
nem de mim.

E só vai virar nunca mais,
quando eu colocar ele na lista
de nunca mais
dizer que vai ser nunca mais.

 

doitagain


A fome infinita das crianças de olhares tristes na África é aterradora. Perder dinheiro deixa qualquer um puto. Reginaldo Rossi morreu sexta e isso é triste. Bati meu dedão na quina da mesinha e estou sentindo a dor até agora. A roubalheira do mensalão e a cara de pau dos políticos faz qualquer brasileiro se revoltar. Meu coração se encolhe sempre que vejo alguma notícia sobre jovens vítimas de balas perdidas e acidentes de automóveis. Em Boa Viagem, não dá pra nadar até o fundo naquele mar tão bonito porque tem tubarão e todo mundo morre de medo dos ataques. Chorei até de manhã lendo aquele livro com o final tão trágico. Ninguém gosta de ficar de recuperação e ter as férias bem curtinhas. Insônia é uma merda, ressaca é foda, e ler ‘transação não autorizada’ é o pior jeito de tomar no cu. Ver uma mulher ser apedrejada pelo marido no Irã é aterrador. Quando o Carnaval cai em fevereiro é tão chato. Ver o Brasil perder na Copa do Mundo também. Flagrar sua mãe chorando então, nem se fala. Péssimo. Ter que acordar cedo no sábado seria a pior coisa do mundo se não existissem as segunda-feiras ensolaradas e as sextas chuvosas. Ir ao cinema sozinha sempre me deixa deprimida. Mais ou menos como quando leio tantas notícias sobre assaltos, estupros e homicídios aqui na cidade. Minha enxaqueca não passa de jeito nenhum. Acabou o requeijão. Tenho pouco dinheiro na conta. Sinto saudades de gente que não vou ver nunca mais. E odeio ficar sozinha nos sábados à noite quase tanto quanto odeio preconceito de qualquer tipo e calças brancas.

Tudo isso é ruim, mas nada no mundo se compara ao que eu senti naquele minuto em que você me disse:

“A gente é o oposto um do outro.
Enquanto eu não amo ninguém
Você ama todo mundo. ”

Depois desse dia, você virou todo mundo.
E eu virei ninguém.


Eu só queria escrever um texto bonito sobre como todo mundo fala sobre o amor todo dia, defende, prega, sente e se ressente sobre o assunto, mas nunca parece alcançar aquele sentimento. Você sabe, aquele. Das músicas dos Beatles, dos filmes mais clichês aos mais indies, das histórias de amor que nunca ficam velhas nos melhores livros. Todos nós parecemos viver em torno desse sentimento, mas nunca sentindo ele correndo nas nossas veias. Ouvimos o tempo todo sobre almas gêmeas, relacionamentos que superaram milhões de quilômetros, paixão à primeira vista, gente que se amou desde criança ou até aquele casal de velhinhos na parada de ônibus.

Mas são sempre  perfeitos os amores dos outros, nunca os nossos. Porque parece que a maioria de nós apenas aceita o amor que aparece. Que talvez não seja assim tão bom, mas também não é tão ruim. É como uma roupa que quase cabe perfeitamente. Só precisa de uns ajustes aqui ali. Se fosse mais apertada nas mangas ou mais folgada na barra. Talvez de outra cor ou em outro tecido.

E desse jeito foi com a gente, até o fim. Se naquele dia você tivesse vindo, se eu quisesse ter te encontrado ou só se o destino tivesse colaborado mais um pouco…Até eu notar que a quantidade de “e se” era grande demais pra algo que já não era quase nada. Pro tão pouquinho que sempre nos definiu. Pouco espaço entre a gente, poucas palavras, poucas roupas e poucos momentos pra guardar. E aí ficou pouco demais pra mim.

Eu decidi parar de tentar reescrever a nossa história, consertar os defeitos, regravar aquela cena com outra luz. Se não tem mais jeito, se é pouco demais, se não serve, se não cabe, se usei até rasgar. Então eu vou jogar fora e começar tudo de novo. Espero que dessa vez o sentimento não seja nem muito apertado nem muito largo. Da cor que eu gosto, do tamanho que eu merecer.

 

 


Rita e Bernardo se conheceram por acaso. Num dia como outro qualquer, daqueles que não marcam e nem parecem ser especiais.

Mas depois disso continuaram a se encontrar com frequência, até surgir uma certa faísca entre os dois. Daí para o romance foi mais rápido do que um intervalo comercial.

E eles se tornaram o casal mais feliz do mundo até o dia em que pararam de ser. Felizes, eu digo.

Não se sabe como, não se sabe porquê, mas da mesma forma repentina que o afeto começa, a raiva também pode surgir involuntariamente quando ninguém poderia prever.

E eles começaram a brigar. Nos dias úteis, nos fins de semana, nos feriados, nos dias santos e nos dias pagãos, na casa da mãe dele e no trabalho dela, em todos os lugares e momentos possíveis. Onde desse pra brigar, eles tavam brigando.

Foram absurdamente infelizes e briguentos por 820 dias, até que Rita mandou Bernardo embora. Ou foi ele que quis ir. Ou foram os dois no mesmo minuto, na inédita primeira vez que eles concordaram em algo. Bernado acabou ficando com a casa que era deles.

Passado algum tempo, ele começou a escrever e-mails pra Rita, mais ou menos assim:

“Rita meu amor,

Eu amo tanto você que quebrei seu conjunto de pratos importados, risquei seu carro com a minha chave e envenenei seu cachorro hoje cedo.

Espero que você goste.

Com amor,

Bernardo.”

Ao que Rita respondia:

“Bernardo,

Os pratos, o carro, o cachorro e tudo o mais que ficou na sua casa, é seu. Tudo seu. Você pensa que está me atingindo mas na verdade só está quebrando suas próprias coisas, seu louco. Suas próprias coisas.

Espero que aproveite.

Com carinho,

Rita.”

Às vezes eu acho que estou quebrando seus pratos, mas só estou destruindo as minhas próprias coisas, a minha própria casa.

É tudo meu e não sobrou nada.

” No casamento grego, a cerimônia de quebra de pratos é uma tradição de desapego aos bens materiais. Não se quebram um ou dois pratos, mas várias pilhas e junto com elas, acredita-se que se liberam todas as energias negativas represadas, conferindo assim boa sorte ao casal que acaba de se unir. Para os gregos, é impossível ser feliz sem quebrar pratos.”



Juliana era completamente apaixonada por Fernando que fingia desinteresse mas era louco pela Vanessa que só queria mesmo era dar pro Rafael, pena que o Rafael já tava fazendo planos de casar com o Beto na Argentina há um ano e meio.

Mas de última hora o Beto fugiu com a prima, o Rafael comprou 15 gatos, a Vanessa se aquietou e casou com o Fernando só pra chatear a Juliana, que se matou com um tiro de espingarda na orelha.

Sorte da gente que tem sempre outra quadrilha.

Sorte da gente que o amor sempre acaba.

Sorte da gente que o amor sempre começa de novo.

E de novo. De novo. De novo.


“Sintonia é a identidade ou harmonia vibratória, isto é, o grau de semelhança das emissões ou radiações mentais de dois ou mais espíritos, encarnados ou desencarnados, ou seja, afinidade moral. Atraímos as mentes que possuem o mesmo padrão vibratório que o nosso, que estão no mesmo nível moral. A comunicação interespiritual é controlada pelo grau de sintonia. Temos, por isso, a companhia espiritual que desejamos mediante o nosso comportamento, sentimentos, pensamentos e aspirações. Estão ao nosso redor aqueles que sintonizam conosco ou têm contas a ajustar. Refletimos as imagens que nos cercam e arremessamos nos outros as imagens que criamos.”

Passamos a nossa vida entrando em sintonia com as pessoas à nossa volta. Emitimos sinais para o universo e encontramos gente parecida conosco, que se aproxima naturalmente e permanece nas nossas vidas por pura e simples empatia.

Seres semelhantes tendem a misturarem-se, de forma natural e indolor, formando combinações tão indissociáveis que torna-se impossível identificar a individualidade de cada componente da mistura.

Ações e pensamentos parecidos e simultâneos, olhares que dizem tudo, coincidências inexplicáveis e toques que substituem qualquer palavra. Quando se está em perfeita sintonia com alguém, necessita-se cada vez menos de explicações. Tudo é alinhado, natural, confortável e pleno de sentido. Te faz sentir-se completo.

A sintonia entre as pessoas é responsável pelas grandes amizades, pelos amores inesquecíveis, pelas parcerias entre profissionais e artistas que mudaram o mundo. Músicas que marcaram época, obras de arte clássicas e avanços na tecnologia e na sociedade são resultados diretos da harmonia entre as vibrações semelhantes de seres humanos muitas vezes diferentes.

Mas tal qual músicas que perdem o ritmo simplesmente porque a terceira corda do violão estava desafinada ou porque o maestro cochilou enquanto orquestrava a melodia, muitas vezes nós também nos desconectamos e saímos da sintonia das pessoas.

Geralmente é difícil, doloroso e desgastante quando alguém sai do círculo energético que você costumava manter. É quase inacreditável ver alguém com quem você costumava estar em sintonia tornando-se sobressalente e não mais essencial.

Incomoda. A música desafina, as energias se desalinham e as pessoas não se entendem mais. O que costumava ser pleno de significado torna-se um um peso a carregar, mantido por razões que nem existem mais.

Quando as energias se desarmonizam, a música vira ruído, a obra de arte vira uma tela em branco, as pessoas discutem e se magoam, o leite azeda e não se consegue dormir em paz.

Perturba, irrita, machuca e faz barulho. Como uma televisão quebrada que nunca mais consegue sintonizar um canal. As ondas que costumavam fluir na mesma frequência se perdem em direções opostas.

Talvez uma das explicações para essa deconexão repentina seja justamente a mudança de nosso padrão vibratório. Muitas vezes mudamos profundamente em um curto período de tempo, mesmo sem perceber, e essa ação ecoa na energia que emitimos no universo. O que costumava ser um interesse em comum, torna-se diferente, e em vez de atrair, acabamos por repelir as energias que não se encaixam mais no nosso padrão.

“Todos nós temos algum grau de sensitividade, dos mais obtusos aos mais ‘paranormais’, por isso estamos sempre sintonizando canais de informações que cruzam o éter. Quando não temos consciência dessa relação, o nosso inconsciente se encarrega de sintonizar as ‘estações’ que deseja, e que na maioria das vezes são as negativas, porque são as mais fortes e gritam. Mas sabendo disso, podem tornar esse processo o mais consciente possível, ajustando os canais que nos sintonizem com as gravações mais construtivas, mais positivas, que toquem mais ‘músicas’ de alegria e de solidariedade.”

Sempre chega a hora de mudar de estação.


“O coração tem domicílio no peito.

Comigo a anatomia ficou louca.

Sou todo coração.”

(Maiakóvski)

 

E eu choro baixinho no quarto, que é pra não incomodar ninguém. Sempre chorei calada,mesmo estando sozinha como agora e não tendo ninguém para incomodar.

Mais tarde minha mãe vai chegar e vai me ver chorando sem falar nada. Ela tá cansada de me ver chorando aqui nesse quarto e só vai me olhar com pena.

Todo mundo que me conhece também tá cansado. Dos meus problemas infinitos, das minhas dores que são tão grandes, dos meus textos melancólicos e das minhas reclamações barulhentas.

Eu também to cansada. Cansada de sentir essa dor que não passa nunca. Cansada de  me achar tão diferente de todo mundo. Cansada de me perguntar o que há de errado comigo.

Cansada de todo mundo sempre cansar de mim.

OK, eu assumo todos os meus horríveis defeitos. Horríveis, todos horríveis. Eu devo ser a pior pessoa do mundo. Você acha que eu não queria ser diferente? Ou melhor, você acha que eu não queria ser igual a todo mundo? E sorrir o tempo todo e passar pela vida anestesiado, achando tudo maravilhoso  e não ligar pra nada? Eu queria.

Mas alguém determinou que eu ia ser sempre o peixe fora d’água, que eu não ia me encaixar em lugar nenhum e que eu ia ser um peso para todo mundo que chegasse perto o bastante.

Eu nunca quis ser assim. Me desculpa por esse imprevisto. Não fui eu que escolhi isso.

A cada dia que passo estou sendo esmagada pela minha própria intensidade. Estou transbordando aos poucos, numa contagem destrutiva para explodir em um milhão de fragmentos. Dói ser assim.

Já cansei de mim mesma  várias vezes.

Me destruo um pouquinho  a cada dia esperando pelo momento  em  que não sobre mais nada.