Dizem que a pior ilusão de todas é a ortográfico-amorosa. Mas eu tenho que dizer que você escreve tudo certinho, mesmo que não fale a minha língua.

Mas de quem será que é a culpa? Se bem ali, no meio daquele porão sujo e enfumaçado, onde não dava pra ver quase ninguém e eu só fui porque era o único lugar que ainda vendia cerveja às 3 da manhã de uma quarta-feira, bem ali perto do bar, você gritou no meu ouvido pra perguntar se eu tava curtindo o som. Não tava. Era alto demais, incompreensível demais, gritado demais. Mas por algum motivo desconhecido pela humanidade, eu, que só gosto de bossa nova e samba cantado baixinho, na beira do ouvido, acenei com a cabeça e disse que tava. Que idiota.

Devia ter percebido logo de cara que a sua vibe era mesmo essas coisas que não dá pra entender e fugido. Mas não. Fiquei. Logo eu, que só sei fugir, fiquei por ali, segurando a cerveja gelada na mão, de cabelo trançado e vestido comprido, te olhando enquanto você apagava o cigarro com o seu all star branco preferido e sorria através da barba cerrada ruiva. Cara, que sorriso era aquele.

E quando a sua mão se entrelaçou na minha, já de manhã, quando o sol já estava querendo dar as caras por cima dos prédios e arranha-céus, você me disse: eu adoro voltar pra casa quando o dia tá nascendo, aproximadamente no mesmo minuto em que eu estava pensando: eu odeio.
Quer dizer, olha só pra nós. Eu vivo à base de cerveja, você, de uísque. Discordamos sobre política, religião, futebol, o Papa, o BBB, Star Wars e o quarteirão com queijo. Isso não vai levar a lugar nenhum, meus amigos dizem. Vocês não são Romeu e Julieta, muito menos Eduardo e Mônica, minha mãe me avisa pelo skype. A gente não harmoniza, a gente não se completa, a gente não se encaixa.

Porque somos ambas as peças do cantinho do quebra-cabeça, só que de pontas opostas. Somos dois yangs, dois potes de feijão achando que são sorvetes de flocos. Eu sei pela culpa que bate no topo do meu estômago toda vez que eu volto pra casa, de madrugada, depois de ter passado horas no seu apê tão distante do meu. Amar você é ter aquela sensação de ter escapado da dieta e me esbaldado em uma torta de brigadeiro todo dia. É como ficar de ressaca dia de semana ou voltar tarde pra casa dia de domingo. Errado, simplesmente errado. E não do jeito certo de errado. Do jeito errado mesmo.

Eu escrevi esse texto pra não esquecer disso. E também pra te dizer que eu, que sempre fui careta, finalmente achei um vício que eu não consigo largar e que me destrói aos pouquinhos, de um jeito gostoso e culpado, mastigando minha sanidade e satisfazendo minhas vontades mais insanas. Mas, como todos os vícios, vale o sofrimento e todas as bad trips só por aqueles cinco minutinhos de delírio, de imagens coloridas e de sair de mim.

E aí seus braços me puxam de volta pra cama e me enrolam feito edredom, quando eu ligo o soneca do despertador do celular e digo pra mim mesma: só mais cinco minutinhos. Só mais cinco minutinhos antes de ter que acordar e encarar o mundo real. Depois disso, eu juro que vou levantar daqui e te deixar de vez. Só mais cinco minutinhos. Eu juro.

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