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Quando você saiu pela porta, sem querer, querendo, a saudade entrou pela frestinha aberta.
Entrou, se esparramou no sofá, abriu uma cerveja e cruzou os pés em cima da mesinha de centro.
A mesinha de centro que a gente comprou junto, naquela vez que aconteceu aquele negócio, lembra?
Eu lembro.
Foi tão engraçado.
Você era engraçado.
Pena que a gente foi perdendo a graça.
Ela saiu junto com você pela porta.
Desde aquele dia eu não te vi mais.
A cidade é pequena e eu ainda ando pelos mesmos lugares.
Mas nunca mais te vi.
Engraçado, porque eu te vejo o tempo todo.
Em todo lugar que eu vou.
Escuto suas risadas, escuto sua voz, escuto você, como se tivesse aqui do meu lado.
Toda vez que eu uso a blusa verde ou o cabelo trançado.
Você foi embora pra ficar pra sempre aqui.
Mais do que você ficaria se realmente ficasse.
Provavelmente você iria embora, se ficasse.
Provavelmente.
Mas fui eu que fiquei.
Visto a blusa verde e tranço o cabelo, enquanto me esparramo no sofá e cruzo os pés em cima da mesinha de centro.
Talvez pegue uma cerveja.
Digo que não, mas sei que estou esperando você voltar a qualquer momento.
Comecei a sentir sua falta a partir do minuto em que você foi embora.
Você foi embora?
Ou é que fui?
Nós dois fomos.
E nós dois ficamos.
Com saudade.
Acho que quando você fechou a porta, deixou aberta uma frestinha aqui.
E eu ainda tô esperando você voltar por ela.
Essa história de ficar distante de você já perdeu a graça.
Eu perdi.
Te perdi.
Eu acho.
Não vou te pedir pra voltar.

Mas você vai?

Saudade é o que fica quando todo o resto já foi embora.
Inclusive a gente.

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