O meu amor já nasceu fora de moda. Antigo. Ultrapassado.

Quando eu percebo, já quero cozinhar sua comida. Preparar seu almoço. Colocar o jantar na mesa e te olhar comer cada pedaço, sabendo que fui eu que fiz, e que coloquei sentimento em cada grão. Depois eu vou colocar a água para esquentar e te coar um café. Do jeito que você gosta. E aí eu me lembro que eu gosto de você gostar.

De ver você assoprar a xícara e me perguntar se tem algum doce pra acompanhar. E aí eu vou te trazer uma fatia do bolo que eu passei a tarde assando. Aquele seu favorito. Só pra te ver feliz. Depois eu quero me sentar no sofá e costurar suas meias. Dobrar suas camisas lavadas, que têm um cheiro bom. E lavar suas cuecas, passear com seu cachorro, levar sua mãe ao médico, transferir todo o meu dinheiro pra sua conta, te ensinar a andar de bicicleta só porque você nunca aprendeu, te ver pegar no sono e depois te esperar acordar, te dar beijo de bom dia antes de você escovar os dentes, deixar os meus cabelos curtos pra te agradar, te dar meu tempo, meus pensamentos, meus sonhos, meus planos, apagar meu passado na borracha e passar a limpo o meu presente quantas vezes forem necessárias só pra escrever o nosso futuro.

É que da boca pra fora eu sou jovem demais, mas por dentro guardo sentimentos que ainda tocam na vitrola e estão gravados em discos de vinil.

E você é aquele pôster na parede do meu quarto, daquele galã dos anos 80, daquela banda que já acabou. Você gira os ponteiros do meu relógio pra trás, me retrocede, me faz voltar ao tempo em que as pessoas viviam só para fazerem as outras felizes.

Gostar de você é isso. Acalma minhas revoluções, distrai meus ideais e me domestica. Basta te ver para querer colocar um anel no meu dedo, criar seus filhos, e varrer seu tapete, enquanto amarro o avental em volta da cintura.

Por isso é que basta te avistar do outro lado da rua, que eu atravesso, desvio a vista, tento fugir.

 Pena que sempre escorrego e caio de volta na palma da sua mão.

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