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 Quando conheci Felipe, ele falava baixinho, mansinho, ao pé do meu ouvido, com a vozinha e o  jeitinho certos para me dar aqueles arrepios que não tinham nada de diminutivo.
Muito pelo contrário, nosso tesão era todo superlativo, quase uma hipérbole.
Eu não cansava nunca de conjugar todos aqueles verbos junto com ele na minha cama de solteiro,  em todos os tempos possíveis, na voz ativa, passiva e com todas as interjeições que tínhamos  direito. Com Felipe não tinha essa de advérbio de modo, nem de lugar. De todo jeito era bom. Toda  hora podia.
Então eu gastava todos os adjetivos mais interessantes do meu vocabulário para ele saber que era  apreciado, sem ter a necessidade de fazer com que virássemos substantivos compostos.
Tínhamos uma ligação singular, mas nunca plural.  Afinal, éramos um caso reto, sem frescuras,  nem pronomes de tratamento.
Passamos anos escrevendo nosso texto apenas com frases curtas e objetos diretos, até que veio a  tal da reforma ortográfica.
Caíram os hífens, palavras juntaram-se e outras separaram-se para sempre.
E Felipe queria saber a gente iria finalmente derivar para nós.
Só que eu só falava a língua das coisas imperativas e desejava que ele continuasse sendo apenas o  meu vocativo preferido naquelas noites indeterminadas.
Não me entenda mal, é que eu não nasci para conjunções e esses tempos subjuntivos do amor, onde  tudo pode acontecer.
Então Felipe saiu por aí para procurar alguém que lhe completasse o sentido, enquanto eu  permaneci indefinida.
Mas a verdade é que eu e aquele sujeito nunca chegamos ao ponto final, apenas rabiscamos    reticências…
E de vez em quando, eu ainda me pego pensando se aquele pretérito mais-que-perfeito pode virar  futuro.

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