Um dia desses, de repente, tudo ficou cinza.
Olhei ao meu redor e me vi cercado, preso, encurralado por grades de ferro onde antes só existiam janelas.
Parei de assobiar aquela velha canção e não conseguia enxergar mais nada além da minha prisão. Apenas as cores do céu, lá no horizonte distante. Azul claro, laranja, vermelho e preto, cheio de estrelas.
Passava todo o meu tempo sonhando com o mundo lá fora. Imaginando a sensação do vento no meu rosto, eu quase tocando as nuvens e me sentindo mais leve que o ar.
Pensava em todos os lugares em que eu poderia chegar e nas aventuras que poderia viver e suspirava, porque eram só sonhos e eu nunca poderia alcançá-los.
Meu peito amargurado era só silêncio e vazio. Nenhuma esperança de me libertar conseguia germinar ali.
Até que, numa madrugada qualquer, em vez de dormir, abri os olhos e finalmente vi.
A porta estava aberta, revelando a saída da prisão. A liberdade. O espaço vazio. A imensidão.
Me aproximei e não consegui acreditar.
Ela nunca esteve fechada. Eu é que não havia conseguido enxergar durante todo esse tempo.
Nunca existiu gaiola. Nunca existiram grades. Apenas eu, enclausurado em mim mesmo, enquanto milhares de histórias e lugares inesquecíveis pacientemente aguardavam por mim. Por apenas um sopro de coragem para me levar adiante.
Mas depois de tanto tempo preso, eu não sabia se as minhas asas eram fortes o suficiente para tirar meu pés do chão e me deixar voar para longe daqui. Se eu deslizaria carregado pela brisa ou cairia no chão rumo ao meu nunca mais. Não existia rede de proteção, nem ninguém para me segurar. Minhas plumas se arrepiaram e pude sentir o vento me chamando. Apenas um sopro era suficiente.
Então eu estiquei minhas asas e saltei.
Abandonei as minhas grades de ferro e me lancei no vazio para me encontrar novamente.
Nunca mais prisão. Nunca mais lamento. Nunca mais silêncio.
Voo por entre as nuvens enquanto o céu vai tingindo-se de cor-de-rosa e o sol começa a nascer.
São tantas novas cores e sensações para conhecer, tantos lugares para desbravar.
Só que agora o meu caminho se estende como o céu acima da minha cabeça: indecifrável e cheio de possibilidades.
No meu peito agora soa uma nova música e eu assobio enquanto voo em direção ao infinito.

                                                                       “Vou passar como um santo mudo. Mirando o alto. Rindo. Preparando o salto. Deixando pra trás tudo. ” (Siba)

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