─ Escreve sobre mim.

Eu estava naquela fase entre ter preguiça de abrir os olhos e ir acordando aos poucos, sem querer levantar, quando você disse isso. Minha cabeça estava encostada no seu peito, seu braço em volta da minha cintura e os lençóis embolados no canto da cama, por causa dessa sua mania de não se cobrir quando dorme.

Fiquei em silêncio e tentei fingir que não havia escutado.

─ Ei. Você ouviu? Escreve sobre mim, vai.

Dessa vez o seu pedido veio acompanhado de cutucões na minha barriga. Passamos cinco minutos numa luta entre cócegas, risadas e empurrões, até você segurar meu queixo e virar meu rosto para encarar o seu.

Tão bonito o seu rosto quando acorda. Fiquei mexendo no seu cabelo até ser a sua vez de fechar os olhos e sorrir.

─ Pra que você quer isso?

Perguntei bem baixinho, mais pra mim mesma do que pra você.

─ Isso? Isso é a coisa mais linda que você tem. Que você é. Além de outras trinta mil, claro.

Nessa hora você abriu os olhos e me observou tão sincero, tão desarmado, que se eu dispusesse de papel e caneta teria escrito algo ali mesmo. Como eu poderia dizer não pra você? Nunca consegui. Mas aí, como sempre, você fez uma piada para estragar a seriedade do momento.

─ E também meu aniversário tá chegando, e como eu sei que a viagem pra Tailândia teve que ser desmarcada, então…

Eu ri e bati de levinho na suas costas com o travesseiro. Devia ter deixado o assunto de lado e me levantado para ir tomar banho. Com certeza você teria esquecido essa bobagem. Mas como eu disse antes, ignorar seus desejos era quase impossível pra mim. Quase.

─ É que eu não posso escrever sobre você.

─ Por que não?

─ Porque tá tudo bem entre a gente. Tudo maravilhoso. E eu só escrevo textos tristes. Só falo sobre corações partidos, mágoas e despedidas. Só posso escrever sobre você depois que você partir meu coração. É o que eu sempre faço.

─ Eu não vou fazer nada disso. Mas vamos supor que eu faça… Aí sim você escreve sobre mim?

─ Isso.

─ Ok. Mas eu não vou fazer.

─ Não. Claro que não. E eu nunca vou escrever um texto sobre você.

─ Não. Nunca.

 Nunca.

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