Eu queria que a nossa vida fosse uma sexta à tarde, quando a hora do expediente vem chegando e existem tantas possibilidades deliciosas à nossa frente. Tudo pode acontecer depois de algumas cervejas, inclusive você e eu. Ou até mesmo se fôssemos um sábado à noite e depois de passar a semana toda esperando, finalmente poderíamos estar prontos pra fazer história. Para temperar nossa loucura com sal, limão e tequila, esquecendo do resto do mundo e lembrando só daqueles minutos ansiosos e divertidos no banheiro da boate. Nós poderíamos tudo isso. Até um pouco mais. Um almoço na quinta-feira que acaba se esticando pela tarde toda. Eu ia querer você como sobremesa, para repetir  várias e várias vezes. E se eu fosse o seu sorriso no meio de uma segunda daquelas no trabalho? A pessoa para quem você liga enquanto fuma e xinga seu chefe. E eu ia escutar tudo e garantir que você se sentisse bem melhor, te prometendo comida chinesa no jantar.

Em meio à tantas escolhas de tudo que poderíamos ter sido, optamos por ser apenas um domingo à tarde. Daqueles em que eu, sozinho, fico no bar ouvindo as músicas mais
bregas da jukebox, enquanto peço ao Márcio, o garçom que eu conheço pelo nome, para por favor, continuar mandando mais uma.

É, eu tô bebendo cachaça mesmo.

Porque quando você é chutado, vinho nenhum cicatriza a ferida. Nem rum, nem vodka, nem whisky. Nada, além de cachaça pura pra fazer arder ainda mais esse buraco que você abriu à unha no meu peito. Então eu sento aqui no balcão e fico olhando o bar esvaziar, a hora passar e você não vir. Sim, porque eu ainda achei que você viesse.
E me tirasse daqui, me levasse pra casa e dissesse que mudou de ideia. Que a gente vai apenas ficar junto e ver as semanas se juntando e formando meses, para depois formarem anos. Quem sabe? Poderia ser assim.

Mas quanto mais eu bebo, mais sóbrio fico. E me lembro, me lembro mil vezes. Mas preferia esquecer. Até o Márcio já conhece a nossa história de cabo a rabo, porque eu já contei a ele nos últimos domingos que vim aqui. Não sei quantos foram. Depois que você foi embora, todo dia agora é domingo.

Daqui a pouco o bar vai fechar, você não vai vir e eu vou cutucar o Márcio enquanto digo com a voz enrolada que “o amor é fudido. Não sei se já te contei essa história, mas tinha uma garota que eu gostava tanto e ela foi embora”. E ele vai ouvir tudo de novo, a mesma coisa de sempre, antes das luzes apagarem e me mandarem ir embora pra casa. E eu vou dormir de roupa e sapato, enquanto espero o bar abrir de novo para vir curar minha ressaca de você.

Sabe, a cachaça é, como dizem, a minha puta. Mas, como todas as putas, quando estou com ela, eu só consigo pensar em você. Ei, quem sabe você não vem hoje? Não, na verdade, quer saber? Puta mesmo é você. E eu fico feliz de você não vir mais. Muito feliz.

Márcio, traz outra dessas e na volta senta aqui, que eu tenho uma história pra te contar.

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