E aquele beijo de novela que ficou guardado e virou um abraço no último segundo? Aquela vez que quis se declarar pra ela não ir embora, mas acabou deixando pra lá. E ela foi. As incontáveis tardes em que morreu de vontade de largar tudo no escritório e sair correndo na chuva. Jogar fora o celular, terminar o namoro e só deitar de barriga pra cima no chão até segunda-feira, sem falar com ninguém. Dizer praquele colega da pós que ele é um chato e pedir pra por favor, parar de contar aquela mesma piada sempre. Largar a academia e começar a andar de bicicleta. Fugir pra uma praia bem distante no fim de semana levando só a prancha nas costas. A tatuagem na perna que sempre quis e nunca fez. A barba que dessa vez ia deixar crescer, com certeza. Os bons amigos da faculdade que sempre combinava de encontrar e nunca dava certo. O telefonema de domingo pra mãe, que andava esquecendo. Saudade de ouvir a voz dela. E comer aquele bolo de fubá saído do forno. Nunca mais tinha assistido o jogo de futebol com o pai. Nunca mais tinha lembrado daquele perfume de fruta que demorou cinco anos pra esquecer. Mas a dona dele volta e meia aparecia nos seus sonhos, mesmo que nunca mais pensasse nela. Nunca mais ver o mar furioso, batendo nas pedras para logo em seguida se acalmar numa maré baixa. Nunca mais se sentir grato por uma manhã de sol depois de uma semana fria. Nunca mais ver uma criança simpática no ônibus ou sentir seu cachorro encostando a cabeça na sua perna. Nunca mais ter dor na barriga de tanto sorrir, nunca mais provar o Melhor Camarão do Mundo no restaurante da esquina, nunca mais ter primeiros beijos e últimas transas, nunca mais sair de mochila pra conhecer o mundo. Nunca mais é tempo demais e não cabem todas essas coisas num segundo.

No minuto em que o carro derrapou na pista, tudo isso passou diante dos seus olhos como um flash, como um filme, como sempre disseram que passaria. Mas o peso de apagar tudo e começar do zero era algo que ele não queria. Entendeu naquele instante que nunca quis recomeçar numa folha em branco e fazer a vida virar uma bolinha de papel no cesto do lixo. Não dá tempo de passar a limpo o rascunho e reescrever tudo de novo. Conseguiu recuperar o controle do carro quando achava que já estava tudo perdido. Respirou fundo, pisou no acelerador e foi viver outras histórias antes que virassem a sua página.

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