“Nunca houve época melhor para ser mulher. Elas podem votar, têm a pílula, estão no topo das paradas musicais, são eleitas presidentes e primeiras-ministras e não são acusadas de bruxaria e queimadas desde 1727. Entretanto, algumas perguntinhas incômodas persistem: Os homens no fundo as odeiam? Como elas devem chamar os próprios peitos? Por que as calcinhas estão ficando cada vez menores? E por que as pessoas insistem em perguntar quando elas vão ter filhos?”

Essa é a sinopse do livro “Como ser mulher”, da jornalista e feminista Caitlin Moran, uma das melhores leituras de 2012 e da minha vida. Sim, eu li um livro cujo título é “Como ser mulher”. Porque nesse mundo em que a gente vive, vinte e dois anos já se passaram e eu ainda não aprendi.

Tenho 13 anos e ouço minha tia dizer que não posso mais brincar com as crianças da rua porque já sou uma moça. Tenho que ficar sentada, conversando, como uma moça faz.

De repente, paro de ganhar coisas legais e só ganho sutiãs e maquiagens. Meus amigos tem a mesma idade e continuam ganhando jogos, bonecos e carrinhos.

Sou obrigada a doar todas as minhas bonecas e seus móveis porque já estou grande demais pra brincar.

Vejo minha mãe aprender a dirigir enquanto ouve piadas sobre mulheres no volante. A família vive perguntando sobre meus namorados, criando romances com meus amigos e me apresento garotos da minha idade.

Quando eu uso short curto ou decote, sou chamada de piriguete, ousada, oferecida e danada por todo mundo. Mas no futebol perto da minha casa, homens adultos jogam usando só uma bermuda curta e ninguém fala nada.

Se falo muito sobre sexo ou uso palavrões pra me expressar, me chamam de “fácil” ou me censuram, porque isso não é coisa de uma mulher direita.

Minha vó diz que se eu quero sair de casa, basta me casar e pergunta quantos filhos eu vou querer ter.

Toda vez que vou sair de casa à noite, preciso pensar em como vou voltar pra casa, pois se tiver que andar sozinha por lugares vazios, vou precisar mudar minha roupa.

Mas se eu abro minha boca para reclamar de qualquer coisa dessas, devo estar de tpm ou chateada porque minha unha quebrou, o cinto não combina com a bolsa e o cabelo não está dos mais arrumados hoje.

Moramos num país onde antes de ouvir as ideias de qualquer mulher na política, a prioridade é avaliar sua beleza física. Se ela for bonita, serve como tema de galanteios e cantadas. Se ela for feia, serve como alvo de piadas. Suas ideias e planos são a última coisa a ser ouvida.

A maioria das propagandas veiculadas nacionalmente possuem mulheres nuas ou seminuas como forma de ajudar a vender o produto. Estupros são filmados e divulgados na internet, para deleite geral. Os criminosos são perdoados pela mídia, que coloca as mulheres como ‘provocadoras’ ou ‘acusadoras’. As vítima tem vergonha, somem, morrem, se calam.

Afinal, mulher gosta é de homem safado, que bate, que xinga, que maltrata. O discurso é o mesmo há duzentos anos, mas não tem problema fazer uma piadinha sobre isso, não machuca ninguém.

Feminismo é visto como drama, como bobagem, exagero, coisa de mulher mal-comida, louca, sem nada pra fazer. As pessoas ainda acreditam que a ideologia é a versão feminina do machismo. O que se ouve por aí é ‘longe de mim ser feminista, jamais’ ou ‘concordo, mas não me importo o suficiente com isso pra fazer alguma coisa.’

O Facebook tira do ar fotos com mulheres amamentando seus filhos, se diz ‘contra discursos de ódio, mas a favor da liberdade de expressão’ e em nome dessa liberdade, liberam fotos de piadas sobre estupro, slut shaming e violência doméstica. Reproduções fiéis de discursos machistas do século passado são vistas como ‘opinião individual e subjetiva’, perdoadas, esquecidas, deixadas para lá.

Com a obrigação do politicamente correto, todo mundo diz que concorda com a ideologia, mas ninguém quer participar da luta pela causa. Por não se sentir atingido, por não querer ler nem falar sobre assuntos tão ‘pesados, negativos, violentos’. Que acontecem todos os dias, com todas essas mulheres.

Dia oito de março não é um dia de celebração da felicidade que é ser mulher. Ainda não. Porque ser mulher nesse mundo ainda significa viver numa bolha própria, cheia de barreiras impostas pelos outros e por nós mesmas. Ser mulher é bom, mas dá trabalho. Em 1908, 40 mil mulheres morreram queimadas por terem lutado pelos seus direitos trabalhistas em uma fábrica de tecidos. Durante as ondas das revoluções feministas, as mulheres foram pras ruas, gritaram, exigiram, mudaram o mundo.

Por nós. Essas mulheres do passado fizeram tudo isso por nós, para que pudéssemos ter direito de votar, estudar, usar calça jeans, praticar esportes e tantas outras oportunidades vitais que nem eram possíveis antigamente. E nós, o que estamos fazendo para nós mesmas, para nossas filhas, irmãs, netas, amigas, companheiras, namoradas e para todos que habitam esse mundo? Quais serão nossas contribuições para fazer desse planeta um lugar melhor para todos?

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Por isso, pense bem antes de se declarar ‘não feminista’. Antes de deixar que a sociedade se aproprie do seu corpo, dos seus direitos, da sua vida. Antes de xingar qualquer outra mulher só porque ela não se veste, não ama, não pensa e não vive igual a você. A causa feminista nada mais é do que uma luta pelos direitos humanos de todos, mas precisamos de muitas mentes pensantes juntas para alcançar uma mudança cada vez maior. Escolha o direito de escolher e organize a sua própria revolução. Afinal, lugar de mulher é fazendo a diferença no mundo.

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