“The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars.”  Jack Kerouac, On the road.

Numa terça-feira de um mês que eu não me lembro, num ano desconhecido, Sophia se olhou no espelho e achou que estava vendo duas de si mesma. Era como se dentro do reflexo houvesse uma outra imagem, mas as duas eram a mesma, que no fim das contas eram Sophia.

Ela pensou que era só porque era muito cedo ou talvez fosse muito tarde. Mas que aquela sensação ia passar qualquer hora dessas. Mas em cada lugar que Sophia ia, ela sentia como se tivesse carregando dois corpos, duas cabeças e dois corações. Aquilo começou a incomodar, assim como uma coceira que começa mansinha e termina fazendo ferida na pele.

Ardia toda ela, de dentro pra fora, como se fosse brasa. Incomodava mais à noite, quando Sophia não conseguia acalmar aquele vulcão ativo que parecia querer fazê-la explodir em plena madrugada. Tinha um coração pulsando dentro do coração dela e nenhum dos dois deixava ela dormir.

Era tanta agonia que a menina ficou perdida. Não sabia mais que pensamento pertencia a ela e que voz era aquela que vinha de dentro. Estar naquela pele já não era tão confortável como antes. Tudo aquilo que a gente conhecia secou e morreu.

Na sexta-feira do mês passado, nesse ano mesmo, acho que você sabe o que aconteceu. A cidade inteira ouviu o grito que Sophia deu. E a casca toda finalmente caiu. De dentro surgiu uma Sophia novinha em folha, feita apenas de novas ideias, novos desejos, novos pensamentos. Descobriu que o vulcão não está dentro dela, o vulcão é ela. Que ferve de noite e se sente capaz de cobrir o mundo inteiro com o calor que vive em suas veias. Seu coração é escaldante e está sempre disposto a amar mais, a querer mais, mais, mais e mais. Nada nela é morno e dá pra ver de longe as faíscas que moram entre os seus cílios e na curva do seu sorriso.

Ninguém conhece ainda a nova Sophia. Mas todo mundo arde de curiosidade para conhecer.

Anúncios