Ontem à noite eu fugi enquanto a minha casa pegava fogo. Você estava dentro, enrolado nos lençóis, dormindo como um anjo. Meus pais também dormiam em silêncio, a um segundo de serem surpreendidos pelas chamas. Mas eu não estaria lá pra ver isso. Vocês todos queimando enquanto a casa derretia como se fosse feita de vela.

Enquanto eu corro sinto a minha pele queimando e ardendo. Lá dentro as faíscas gritam meu nome, enquanto eu fujo para o lado contrário o mais rápido que eu posso. Como se eu tivesse asas nos tênis, como se o mundo todo fosse se converter em uma explosão de chamas enquanto eu fujo pra salvar a minha pele.

Atrás de mim, mil edifícios desmoronam e viram pó em questão de segundos. Quase nem dá pra ouvir os gritos dos meus vizinhos enquanto tudo à minha volta vira poeira. Quase.

Depois de virar a esquina, quase perco o equilíbrio. É que uma cratera gigantesca se abriu no meio do asfalto, engolindo casas, árvores, carros, praças inteiras, escolas, bancos. Desvio sem nem olhar enquanto o quarteirão em que eu morava é todo engolido e mastigado pela terra.

Continuo correndo, agora quase em fôlego. Do meu lado direito, vejo a tsunami cobrir violentamente a cidade. O barulho é tão assustador que quase me acalma. Se não fosse por um ou outro grito de terror das poucas pessoas que estão acordadas e já entenderam  o que está acontecendo. De fato, algumas estão paradas no meio das ruas, quando a tempestade de raios começa.

Fica cada vez mais difícil correr em meio às avenidas completamente destruídas mas eu estou quase alcançando meu destino e aí vou poder parar. Aí vou estar a salvo, finalmente. Só mais um pouco, eu fico repetindo para o meu corpo que se recusa a obedecer. Só mais um pouco. Gostaria realmente que as pessoas parassem de cair mortas na minha frente.

Acordo por causa do calor. Está tão quente no meu quarto que eu mal consigo respirar. Mas ao abrir os olhos, só vejo fumaça. E um borrão alaranjado. E o calor só aumenta, agora me sufocando enquanto eu tento chegar perto da janela, que está trancada e não cede ao esforço das minhas mãos escorregadias. Se passa um minuto até que o sonho volta como um raio e preenche a minha memória, enquanto o fogo explode a porta e toma conta do meu quarto.

Esse era o meu mundo e esse é o jeito que ele acabou. Todo dia quando acordo, vejo que não consegui fugir. Em vez disso, sento no chão e aguardo calmamente a tempestade de relâmpagos chegar.

Anúncios