Rita e Bernardo se conheceram por acaso. Num dia como outro qualquer, daqueles que não marcam e nem parecem ser especiais.

Mas depois disso continuaram a se encontrar com frequência, até surgir uma certa faísca entre os dois. Daí para o romance foi mais rápido do que um intervalo comercial.

E eles se tornaram o casal mais feliz do mundo até o dia em que pararam de ser. Felizes, eu digo.

Não se sabe como, não se sabe porquê, mas da mesma forma repentina que o afeto começa, a raiva também pode surgir involuntariamente quando ninguém poderia prever.

E eles começaram a brigar. Nos dias úteis, nos fins de semana, nos feriados, nos dias santos e nos dias pagãos, na casa da mãe dele e no trabalho dela, em todos os lugares e momentos possíveis. Onde desse pra brigar, eles tavam brigando.

Foram absurdamente infelizes e briguentos por 820 dias, até que Rita mandou Bernardo embora. Ou foi ele que quis ir. Ou foram os dois no mesmo minuto, na inédita primeira vez que eles concordaram em algo. Bernado acabou ficando com a casa que era deles.

Passado algum tempo, ele começou a escrever e-mails pra Rita, mais ou menos assim:

“Rita meu amor,

Eu amo tanto você que quebrei seu conjunto de pratos importados, risquei seu carro com a minha chave e envenenei seu cachorro hoje cedo.

Espero que você goste.

Com amor,

Bernardo.”

Ao que Rita respondia:

“Bernardo,

Os pratos, o carro, o cachorro e tudo o mais que ficou na sua casa, é seu. Tudo seu. Você pensa que está me atingindo mas na verdade só está quebrando suas próprias coisas, seu louco. Suas próprias coisas.

Espero que aproveite.

Com carinho,

Rita.”

Às vezes eu acho que estou quebrando seus pratos, mas só estou destruindo as minhas próprias coisas, a minha própria casa.

É tudo meu e não sobrou nada.

” No casamento grego, a cerimônia de quebra de pratos é uma tradição de desapego aos bens materiais. Não se quebram um ou dois pratos, mas várias pilhas e junto com elas, acredita-se que se liberam todas as energias negativas represadas, conferindo assim boa sorte ao casal que acaba de se unir. Para os gregos, é impossível ser feliz sem quebrar pratos.”

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