Sabe, hoje eu cheguei à conclusão que eu acho que meio quase gosto de você. Assim, quase certeza né. Quase cem por cento.

O caso é que eu desaprendi a gostar por inteiro. A amar de verdade, daquele jeito que a gente assina, carimba, reconhece firma e tudo. Daquele jeito só antigamente. Quando eu empurrava o coleguinha que sentava na minha frente e em troca ele puxava minhas maria chiquinhas. Que era só pra ele não perceber que eu adorava ele e que a recíproca era mais que verdadeira.

Daquele jeito nunca mais. Desse jeito de agora, sempre.

Eu que sempre fui tão intensa e pregava aquela história de viver o dia como se fosse último. Amando dos fios de cabelo até os dedos do pé. Chorando na chuva, se declarando na varanda, beijando na rua e depois até de manhã.

Bons tempos. Hoje em dia não tem quem me faça pegar chuva, não tem rua segura pra beijar e declaração só a do imposto de renda, porque é obrigatória. Os fios de cabelo e os dedos do pé não participam mais dos processos afetivos.

É, eu mudei. Meu coração que antes era de manteiga enfim virou pedra, que nem o de todo mundo. Finalmente parei de resistir e me entreguei a esse mundo moderno, 2.0, instantâneo. Amor é coisa que dá e passa. Ninguém mais morre disso.

Aprendi a gostar só um pouquinho, quase nada. Assim feito parece que eu gosto de você.

Com apenas metade do drama, metade do sofrimento e quase nada de felicidade.

É quase nada mesmo. É só aquela alegria quando você chega ou quando diz que tá chegando. E a aflição que dá quando você vai embora. Me vem aquela vontade de te pedir pra ficar só mais um pouquinho comigo, só mais cinco minutinhos, que nem a gente mendiga o sono de manhã cedinho.

E também o ciúme que eu tenho de qualquer outra. Não que eu seja a uma. Mas também não queria que tivesse mais nenhuma além de mim, pra ser bem sincera.

Mas nem era pra eu desejar isso. Porque já tem desejo demais nessa história e eu nem vou entrar em detalhes sobre isso.

Mesmo sendo bem pouquinho e esse quase nada que eu já falei, de alguma forma isso de agora lembra um pouco as minhas história de empurrões e marias chiquinhas no recreio.

Talvez por ser tão involuntário quanto. Como quando eu sorrio de algo que você diz e eu nem quero sorrir, mas quando eu vejo já foi. E aí você sorri também que é pra saber que eu tô sorrindo sem querer sorrir. Ou quando você me olha daquele jeito meio sério, sem dizer nada e eu fico querendo saber se tem alguma coisa ali, escondida no brilho do seu olho.

É, eu sei. Soa como se eu estivesse encrencada. Mas eu juro que não tô porque diferente dos gostares de antigamente, esse é mais tranquilo. Eu consigo te deixar guardado no meu pensamento pra um dia desses qualquer, quando estiver meio frio e eu quiser me lembrar de alguma coisa boa. Porque esse poder de me derreter só com uma lembrança, desculpa, mas por agora, é só você que tem. Bem que eu tentei procurar, mas todo mundo que eu encontro é quase você. Só pelos detalhes é que se nota que não são. Ninguém é.

Mas ó, não se preocupa não. É coisa pouca, quase nada. É um ensaio do que podia ter sido ou sei lá, do que ainda pode ser. Mas não machuca, não dói, não tira meu sono. Eu ainda sou de pedra, pode ficar tranquilo. Estamos a salvo, eu e você, desse perigo à espreita que é o amor.

Tá tudo bem. Por enquanto.

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