“Nas pernas escuras da moça havia muitas cicatrizes brancas pequeninas. E pensei: Será que essas cicatrizes estão no seu corpo inteiro, como as luas e as estrelas no seu vestido? Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos que fazer um acordo e desafiá-los. Temos que ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser o nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: “Eu sobrevivi”.

Começa casualmente. Um pouquinho ali, uma outra vezinha ali. Só por diversão, nem vai pegar nada, eu paro quando eu quiser.
Quando você se vicia em alguma coisa, é sempre assim. Achando que não vai acontecer com você, porque você é diferente dos outros: mais forte, menos vulnerável, menos burro, talvez.

Mas você nunca considera a força arrasadora do vício e como ele pode fazer você esquecer todo esse discurso em pouquíssimo tempo. Em um minuto você tem o controle, no minuto seguinte você não consegue mais fugir.

Existe reabilitação para dependentes químicos e viciados em todo o tipo de coisa: comida, internet, sexo, refrigerante.
Mas ainda não inventaram uma rehab pros viciados em atenção. Em amor. E na falta dos dois principalmente. Não há clínica no mundo que cure os viciados em sofrer.

Tudo começa quando você diz que aguenta mais uma decepção, que quer arriscar, porque ‘quem não arrisca não petisca’, porque ‘pior é viver pensando no se’, e outras justificativas clichês.

Mas há uma diferença nada tênue entre arriscar e em apostar no mesmo cavalo errado todas as vezes. Você demora a perceber que não está tentando: está procurando pelo erro, pelo problema, pela segurança da dificuldade de sempre.

Afinal, sofrer é mais cômodo. O ser humano tem o terrível defeito de ser atraído pelo que é familiar, mesmo que seja desagradável. É mais fácil retornar ao mesmo velho sofrimento de sempre do que buscar pelo que pode te fazer de verdade. Ser feliz geralmente custa caro: significa se arriscar de verdade, criar expectativas, lutar e se dispor a perder o que você nem sabia que tinha.

Por isso é tão mais confortável e seguro empurrar as coisas com a barriga: o emprego ruim, o chefe chato, o namorado mais ou menos e a uma vida onde tudo dá sempre errado.
Se é sempre a mesma coisa, não há surpresas. Quem disse que zona de conforto é significado de felicidade? O conforto às vezes é só a mesmice de sofrer sempre do mesmo calo, ali onde nem dói mais, só incomoda de vez em quando.

Mas para a minha felicidade e provavelmente para a sua também, algumas vezes o sofrimento chega num limite natural. Assim como os dependentes químicos tendem a ter doenças terminais ou morrer das consequências dos seus vícios, a natureza também encontra um jeito de parar o vício em sofrimento. É o momento limite, ali onde você escolhe entre se deixar levar até o fundo do poço até o fim ou lutar para melhorar.

E eu não vou mentir pra você: tanto quanto qualquer rehab, largar o vício é doloroso demais. E acontecem as recaídas, onde você só quer ter mais um pouco daquela sensação familiar, mesmo que te destrua. Você se arrepende e reconsidera a decisão milhões de vezes.

Mas exatamente aí, nesse minuto, o seu sentido de auto-preservação vai se fazer presente como nunca. Nós fomos feitos para sobreviver, afinal de contas.

Para evoluir e sobreviver. Não para se deixar estagnar, não para se deixar destruir por nada, nem por si mesmo.
E por mais baixa que possa ser sua auto-estima, acredite, ela existe. E ela vai fazer você lutar pela única coisa que vale a pena: você mesmo e a sua plena integridade.

Depois disso, como dizem, é história. O caminho é muito longo até o dia em que você vai parar de buscar as escolhas erradas de propósito e vai começar a aprender a ser feliz.

E a ficar feliz. Sem receita mágica, sem viver com um sorriso pregado no rosto. Apenas procurando as decisões que possam te realizar, te preencher e te fazer entender porque afinal, dentre tantas possíveis combinaçõe genéticas, você é quem está vivo.

Apesar do tom de palestra motivacional, tudo isso aconteceu comigo. E eu ainda estou no processo de pensar bem nas escolhas e pra onde elas vão me levar. Acertar o caminho é sempre difícil, mas o único jeito de saber é tentar.

Se arriscar de verdade, sem ter nenhuma ideia do que pode acontecer é extremamente assustador. Não tem pára-quedas, não tem sofá e cobertor, só tem você sozinho e exposto ao que quer que aconteça.

Igualzinho ao minuto em que você pula de asa-delta, nunca dá pra saber se o vento vai ser favorável. Se você vai voar tranquilamente ou se uma mudança de vento vai te fazer cair no mar.

Mas se você não pular, nunca vai poder ver a cidade lá no alto e as pessoas pequenininhas aqui embaixo. A brisa bagunçando seu cabelo, o friozinho na barriga e a sensação de liberdade.

Não dá pra imaginar, eu só vou ter certeza quando correr, fechar os olhos e pular. Só me resta abrir os braços e torcer pra que o vento esteja ao meu favor.

“Daqui a pouquinho vou falar umas palavras tristes para você. Mas você deve escutá-las da mesma maneira como combinamos ver as cicatrizes. Palavras tristes são apenas uma outra forma de beleza. Uma história triste quer dizer: essa contadora de histórias está viva. Daí a pouco, alguma coisa boa vai acontecer com ela, uma coisa maravilhosa, e ela vai se virar e sorrir.”

Chris Cleave in “Pequena abelha”.

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