Uma vez alguém me disse que à medida que você cresce, começa a compreender os seus pais.

Andei me lembrando desse ditado ultimamente, por estar não só compreendendo os meus pais como também a minha família.

Sabe, sempre tive tantos problemas com a minha família e continuo tendo, provavelmente vou ter até morrer.

Sinto como se eles não me compreendessem e nem se esforçassem para isso, sinto como se eu fosse sempre a preterida e nunca a preferida, sinto tantas coisas. Todos temos problemas.

Mas de uns dias para cá andei passando um tempo com a minha família e percebi milhares de coisas que sempre me recusei a enxergar.

Mesmo eu sendo uma pessoa tão difícil de se conviver, tão completamente louca e absurda, passional e cheia de tragédias e exageros, a minha família sempre me aceitou.
Talvez realmente não me compreenda, não me prefira, não me dê tanta atenção como eu precisaria e gostaria.

Mas sabe, eles me aceitam. Eles encontram eufemismos e justificativas para todos os meus enormes defeitos e problemas. ‘Ela não é problemática, ela tem a personalidade forte.”ou “Ela não é insistente, ela defende suas opiniões”. Me enxergar através da ótica dos meus parentes é atribuir várias qualidades a mim que eu costumava ver como defeitos. No mundo paralelo familiar, eu sou uma versão melhorada de mim mesma.

Todas as vezes que eu precisei me afastar do mundo, eu procurei a casa da minha avó. Ela mora num lugar tranquilo e toda vez que eu sento no sofá dela, tenho a sensação de que problema nenhum pode ser grande demais, que tudo vai ficar bem. Estar lá, dormir cedo e me alimentar direito é como voltar a ser criança. É me sentir cuidada de novo, é sentir que alguém me fala ‘vai ficar tudo bem’ e que tudo ainda vale a pena. Que eu ainda valho a pena.

Muitas vezes eu passo um tempo longo sem ir até lá. As ocupações e preguiças do cotidiano fazem com que eu esqueça de fazer visitas frequentes. Mas mesmo assim, ainda que reclamando do meu abandono, minha família sempre me aceita de volta. Toda vez que eu chego na casa da minha vó cansada, arrasada, preocupada, achando que finalmente me coloquei em uma situação impossível de ser resolvida, eu sou aceita de braços abertos. Usando as piores roupas possíveis, com o cabelo mal penteado e a cara de quem não dorme direito há muito tempo, eu sou cuidada, eu sou amada, eu sou mais do que tudo, aceita. Ainda que não compreendida, ainda que tão egoísta, ainda que não fazendo nada em troca.

Recentemente andei pensando sobre isso e sobre qual o significado de família na minha vida e no mundo, de forma geral. Todo mundo costuma maldizer a família que tem, reclamar, criticar, brigar ou até mesmo evitar os parentes. São muitas as situações diferentes que cada um de nós enfrentamos e só estando na pele para saber que tipo de relação familiar é mantida. Raras são as pessoas que eu conheço que valorizam os seus familiares ou nunca reclamam de problemas.

Cheguei à conclusão de que família, como qualquer relacionamento humano, é uma convivência delicada e difícil. Mas também como qualquer relação humana, costuma ter suas surpresas, milagres e sentimentos inexplicáveis e maravilhosos.

Família não é só relacionada aos parentes que dividem código genético e sobrenome com você.

Família é qualquer ser vivo que aceita você exatamente como você é e permanece na sua vida mesmo quando você foge, mesmo quando você se esconde, mesmo quando você enlouquece. Família é nunca abandonar, não importa o que aconteça. Família é uma das únicas coisas da vida que costuma ser para sempre.

Eu sou vista de uma forma muito bonita pelas pessoas que fazem parte da minha família. Para eles eu sou forte e lutadora, mas ao mesmo tempo sensível e passional. Brigo pelas minhas opiniões, mesmo que elas nem valham a pena e eu acabe fazendo besteira depois. Mas tudo bem, porque eles aceitam as minhas desculpas. Porque eles me veem como carinhosa e atenciosa e morrem de rir com a minha risada escandalosa, minhas piadas idiotas e minhas trapalhadas fenomenais.

Nesse ano que está começando, eu aprendi a olhar melhor para minha família e valorizar a existência de cada um de seus componentes. Os que dividem comigo tipos de cabelo e sorriso e os que não são sangue do meu sangue, mas me aceitam do jeito que eu sou, sempre.

Em 2012 eu quero honrar o modo como a minha família me vê e o amor que eles expressam por mim, sempre. Quero voltar a ser alguém que ri mais e que some menos.

A minha maior meta desse ano que começa agora é finalmente deixar de ser quem eu costumava ser e me tornar a pessoa que eu sou agora.

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