“Everybody has a secret world inside of them. All of the people of the world, I mean everybody. No matter how dull and boring they are on the outside, inside them they’ve all got unimaginable, magnificent, wonderful, stupid, amazing worlds. Not just one world. Hundreds of them. Thousands maybe.” [Neil Gaiman]

Nos meus milhares de mundos secretos, vivem milhares de eus diferentes. Cada uma com personalide e desejos próprios, lutando para serem ouvidas pela eu aqui de fora.

Imagine a dificuldade de conseguir colocar ordem em toda essa bagunça que sou eu.

Difícil mesmo é achar um jeito de harmonizar as diferentes vozes formam meus pensamentos, meus sonhos, minha mente.

Dentro de mim existe um medo muito grande da solidão. Nada assusta mais esse meu eu pequenino, tão criança, do que pensar em passar o resto da vida desfrutando apenas de sua própria companhia.

Mas aqui fora eu vivo sozinha. 24 h por dia, muitos dias na semana e até mesmo nos finais de semana. Até quando eu estou com os outros, eu continuo sozinha, porque não estou ali de fato.

E com o tempo a minha voz de criança pára de chorar e de espernear e se conforma em ficar sozinha mesmo. E em não ter sempre o que quer. A passar muito mais tempo aguentando o que não é bom.

Aí eu ando por aí carregando essas milhares de mins e vejo coisas banais na rua.
Um cara pintando a parede lá longe, um carro pequeno estacionado entre dois carrões, uma criança, um pedaço de plástico, um idoso.
E eu penso que eu queria ser qualquer uma dessas pessoas, qualquer uma dessas coisas.

Só pra não ter que ser eu.

A pessoa que eu sou aqui fora é completamente incongruente com as milhares de eus aqui dentro.

Isso aqui é só uma casca, feita pra aprisionar e proteger todas as minhas vozes que não podem ecoar em público.

Eu passei a vida inteira achando que eu era a de fora, olhando tudo aquilo e apenas passando. Calando, guardando, observando. Tolhendo todas as minhas vontades, disciplinando as minhas loucuras e interpretando o papel de ‘normal’ e ‘feliz’.

Atuações que nunca enganaram ninguém por muito tempo.

Sem querer minhas milhares de vozes escaparam por debaixo da disciplina e explodiram pra fora da minha casca. Todo mundo viu de perto a minha loucura, a minha tristeza, o meu vazio. E as milhares de vozes falaram todas ao mesmo tempo até deixar todo mundo surdo.

Hoje em dia eu me vejo como uma das vozes. Como todas ao mesmo tempo. Eu não sou mais a casca. Eu já explodi, mas ainda me sinto sufocada a cada dia. Ainda me sinto sendo esmagada com meu próprio peso, ainda me sinto tendo que batalhar pra ser ouvida.

Eu grito tanto, mas ninguém me ouve. Porque existem mais 1578 vozes gritando junto comigo.

Mas aqui do lado de fora só existe silêncio.

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