E é bem assim,numa segunda-feira à noite e já tá meio tarde e eu volto no ônibus com a cabeça pra fora da janela e começa a tocar Cazuza. Não uma das 135 músicas dele que eu adoro,mas aquela, a pior de todas, a mais dolorosa. Ele canta Faz Parte Do Meu Show e eu percebo que tô chorando que nem uma criança. E os passageiros do ônibus começam a olhar pra mim e eu lembro que odeio chorar em lugar público. Mas choro tanto que soluço, porque ouço a música e sinto a dor dele quando canta e sinto a minha dor e sinto a dor do mundo inteiro que ouve essa música e chora também. E de repente é tanta dor que eu nem aguento mais. É coisa demais pra mim e eu não consigo mais parar de chorar. E o cara que tá sentado do meu lado me olha com uma cara de pena e eu choro mais ainda. E aí eu lembro de todos os meus amigos me chamando de exagerada e dramática e tento parar de chorar. Lembro deles me falando pra parar de me preocupar tanto, de aumentar tanto as coisas, aprender a deixar pra lá. Mas ninguém entende que eu não consigo. Que pra mim tudo dói muito e eu não sou dramática nem exagerada, eu sou o próprio drama e o próprio exagero. Ninguém sabe o que eu sinto nem o quanto eu sinto.Minha dor não é maior do que a de ninguém,mas ela dói muito. E não dói só emocionalmente, dói fisicamente mesmo. Meus braços doem, minhas veias doem, minha pele dói, eu inteira dôo. Desde as raízes do cabelo até as terminações nervosas da sola dos pés. Tudo dói e eu não aguento.. Não consigo respirar, porque dói tanto. E minha mãe faz chá e me pergunta qual é o problema e eu não sei nem por onde começar. Queria encostar minha cabeça no colo dela e chorar até meus olhos secarem. Ninguém aguenta mais ouvir minhas dores e eu entendo isso, porque eu também não aguento mais. Às vezes eu acho que vou explodir e ninguém vai ver, nem perceber.

Será que se eu sumisse,ia fazer falta pra alguém? Ou eu ia virar pó e perceber que nunca existi de verdade?

Hoje eu achei que ia explodir,que ia sentir minha pele se desfazendo e eu inteira me apagando.
Mas pior do que explodir é essa sensação de estar sumindo um pouquinho mais a cada dia.

Eu tô sumindo e ninguém tá vendo e a única coisa que eu penso é em falar isso tudo pra alguém,pra que não me deixem escapar, que nem eu fosse um pouquinho de areia e estivesse escorrendo por entres os dedos de alguém. Eu quero pedir pra não me deixarem virar pó, mas eu não consigo pedir nada e minha garganta fecha e eu não consigo respirar mais.

Não consigo dormir, não consigo parar de chorar, não consigo me acalmar o suficiente pra colocar minha cabeça e meu coração em ordem.

Minha amiga diz que sonhou comigo desesperada e eu não podia estar mais desesperada do que agora.
Eu não consigo entender porque é que todo mundo vive tão anestesiado, tão bem, tão tranquilo e eu vivo nessa agonia. Eu quero me anestesiar também, eu quero parar de questionar tanto, de me preocupar tanto, de me doer tanto.

Eu quero essa paz que as pessoas aparentam, essa leveza, essa calma tão grande em levar as coisas da vida. Já tive tanto orgulho de ser tão sensível,mas agora não quero mais ser sensível, não quero mais esse caos desencontrado que eu estou, que eu sou.

Eu já parei de chorar e posso até sorrir,mas aqui dentro eu não paro nunca. Nunca.

Se existe algum jeito de estancar essa dor, de calar os gritos dentro da minha cabeça e de ficar em paz, eu quero conhecer.

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