Isso é uma carta.

Sabe carta? Aquele negócio meio velho e esquecido nesse tempo de e-mail, sms, chat, etc.
A gente não escreve mais carta. Mas deveria.

Cartas tem um jeitinho de coisa preciosa,de coisa querida, de coisa pra guardar.
E-mail vai pra lixeira, carta nunca. Carta é um jeito de guardar palavras e momentos pra sempre.
Então essa é uma carta pra congelar pra sempre alguns momentos.

Ela é endereçada a mim, porque nos últimos tempos não existe pessoa que tenha me ouvido com mais atenção do que eu mesma.
Sabe, voltei a escrever na minha agenda.

Eu escrevo desde os oito anos de idade em milhares de agendas coloridas, que além de histórias guardaram também fotos, embalagens de chocolate e lembranças de todo o tipo.
Mas por algum motivo eu parei de escrever no começo desse ano. Não tinha mais vontade de contar minha vida, que tava tão complicada que nem eu mesma conseguia explicar pra mim.

Felizmente voltei a escrever agora e não pretendo parar novamente. Tava com saudade das minhas agendas, que sempre foram uma espécie de mini-análise de mim mesma.
Andei também relendo umas agendas nem tão velhas assim.

2008,2009,que saudade gigante. Eu passava páginas e páginas reclamando de coisas tão bobas.
E as coisas que me faziam feliz também era tão pequenas. Pequenas ambições, pequenos desejos, pequenas dores e grandes felicidades. A vida era tão simples com 18, 19 anos.

Eu tinha umas certezas tão seguras e plenas, convicções que ninguém conseguia tirar de mim.
Os amores eram gigantescos, as raivas então nem se fala, amigos pra vida toda, férias inequecíveis e os preços dos meus sorrisos eram equivalentes a um chocolate, um abraço, um sonho bom.

O meu mundo mundo era tão simples. Na época eu achava que era tudo tão complicado, mas lendo hoje eu só consigo sorrir e sentir saudade.
Escrever pra mim mesma talvez seja a minha salvação, a minha terapia, o meu melhor passatempo.

Escrever lá nas agendas, escrever aqui no blog, nas redes sociais todas, de uma forma ou de outra é sempre falar sozinha.
Às vezes tem gente lendo e ouvindo, às vezes não. Às vezes sou só eu com minhas reflexões e meus dramas absurdos de novela das 8.
Mas recentemente eu descobri que tudo bem, sabe. Tudo bem ser assim desse jeito que eu sou.

Não tem absolutamente nada errado em ser assim.
Aqui dentro tem uma Gabi que sorri e diz : tudo bem se você é assim. Tudo bem.
Pode chorar, pode gritar, pode arrancar os cabelos e soluçar enquanto o ar falta nos pulmões. Não tem problema nenhum. Vai passar.
Uns 2 ou 3 dias comendo doce e assistindo filme triste e depois passa.

Vai ver filme que passa. Vai ver seriado, vai ver desenho, vai ouvir música, vai escrever, vai desenhar.
Não é o fim do mundo, nunca é. Eu vivo um fim do mundo por mês e continuo vivendo.
Essa carta é pra me lembrar de tudo isso.

Pra marcar e deixar guardada a sensação de ler as agendas antigas. A sensação de voltar a escrever na agenda nova.

Essa sensaçãozinha de liberdade, de ‘vai ficar tudo bem’, de ‘a vida é boa e ainda tem muita coisa pra eu viver’.
Eu sei que essa sensação não vai durar muito tempo e daqui a pouco eu já vou estar nas minhas tempestades em gota d’água, dramatizando e surtando, como uma boa atriz de dramalhão que eu sou. Tudo bem, depois passa.

Sei também que sempre tem gente pra criticar. Pra ficar apontando o dedinho sujo na minha cara e citando meus defeitos de A a Z. Tá, tudo bem. Deixa que falem.

O que eu não quero mais é deixar que me afetem tanto. É ficar costurando a minha felicidade à boa vontade dos outros. Ficar validando minha vida através da opinião alheia. Ficar entrando em crise porque alguém disse alguma coisa que não foi legal ou porque eu senti uma energia meio negativa vindo de um ambiente.

Ah, que se dane. Eu quero manter comigo essa sensação de pleno controle da minha vida que eu tô agora. De independência, de liberdade, de não ser grudada com ninguém, de não ter responsabilidade com ninguém. Não me preocupar e nem cuidar mais de ninguém.

Pra não ser mais pesada, eu tenho que parar de absorver os pesos dos outros.

A partir de agora não quero mais nó nenhum com ninguém. Só laços. Algum escritor famoso disse que nós apertam, laços enfeitam.
Então tá, só laços daqui em diante.

Essa carta é pra manter tudo isso gravado e marcado. Pra que eu volte aqui sempre que precisar. Pra me lembrar disso tudo e não me deixar levar pelos milhares de nós de marinheiro que eu vim fazendo em volta do meu próprio pescoço nos últimos tempos.

Desfaz tudo. Deixa só o que é bonito e não aperta, não sufoca, não dói e não incomoda.

Atenciosamente,
Gabi.

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