“As pessoas buscam “relacionamentos de bolso”, do tipo de que se “pode dispor quando necessário” e depois tornar a guardar. Ou que os relacionamentos são como a vitamina C: em altas doses, provocam náuseas e podem prejudicar a saúde. Tal como no caso desse remédio, é preciso diluir as relações para que se possa consumi-las. ” (Amor Líquido – Zygmunt Bauman)

Numa conversa com uma amiga, me lembro da gente falando sobre a necessidade de escrever e ter um Blog. De ter um lugar pra expressar tudo que a gente pensa e sente e de como isso salva os dias.

Se eu não escrevesse,eu explodiria.

É tanta coisa que eu guardo aqui dentro e não falo, não mostro, não deixo ninguém saber.

Em parte porque não consigo falar, em parte porque quase ninguém consegue ouvir.

É engraçado. Quando a gente é criança e faz ‘melhores amigos’. Aqueles que a gente vê todo dia na escola, conta segredos, troca figurinhas, chama a mãe de ‘tia’ e jura que nunca vai se separar.

Depois a gente cresce e a ideia de amizade vai se modificando. Tem amigo pra falar todo dia. Tem amigo pra falar de vez em quando. Tem amigo pra não falar nunca,mas mesmo assim é amigo.

E aquela história de ‘contar tudo’ também vai ficando meio diferente. A gente quer mesmo contar tudo? A gente quer mesmo ouvir tudo que o outro tem pra contar? Ou só as partes principais? Ou só o que interessa a gente? Ou só quando a gente tá sem fazer nada e a pessoa já tá falando mesmo,né.

É diferente porque é tudo tão plástico, tão flexível. Depois que a gente cresce a gente aprende que nada mais é tão definitivo assim como na infância.

“Nunca mais” e “´pra sempre” não existem mais. Por isso a gente não dá mais tanto valor quanto antigamente. Se alguém briga com você,espera. Amanhã ela acorda melhor e vocês se falam. Ou não, tanto faz. É tanta gente chegando e indo o tempo todo. Indo embora e voltando semana que vem. Gente nova, gente velha, gente que a gente achava que não ia mais ver, gente que a gente achava que ia ver pra sempre. Tudo muda o tempo, nada permanece.

Não tem mais aquele recreio triste, de você sentado sozinho sentindo falta da Juliana que ficou de mal porque você perdeu a boneca dela. Se a Juliana não fala mais com você, putz, tem o Pedro, tem a Laura, tem a Cris, tem o Eduardo, tem milhares de outros amigos por perto,você não vai nem ter tempo de sentir falta da Juliana,sabe.

Hoje em dia tudo é raso demais. As relações são diluídas pra não cansar, pra não incomodar, pra não alterar a sua realidade toda planejada. Não é pra interferir, não é pra ter significado : é só pra fazer parte se der tempo.

Ninguém quer mais ouvir seus segredos inconfessáveis, ninguém quer mais ficar grudado em você 24 h, ninguém quer mais esse peso terrível de ser o melhor amigo ou ‘A’ Juliana.

A gente quer ser só mais um Pedro, Laura, Cris, Eduardo. Só mais um. Pra falar quando tiver tempo, pra encontrar de vez em quando e saber das novidades. Pra marcar um chopp e depois voltar pra casa. Pra quando der e se der. Mais do que isso, não.
E todo mundo diz que tá feliz assim, mas usa Twitter pra dizer o que tá acontecendo, Facebook pra dizer o que tá pensando e Blog pra dizer o que tá sentindo.

Pode nem ter ninguém do outro lado lendo, mas a gente precisa falar, porque os amigos do final de semana não são suficientes, por mais que a gente minta que são, sim. A gente digita e publica pra que alguém em qualquer lugar do mundo leia. Pra achar alguém que escute, sem você ter que pedir, sem que você tenha que rotular de ‘amigo’, sem que você tenha que ouvir também.
A internet é um grito de socorro de um mundo cada vez mais raso, cada vez mais superficial, cada vez mais sem substância, só embalagem.

O que a gente quer é só vitamina C : rápida, eficaz e pra ser usada de vez em quando, só quando realmente necessária. Mas não pode usar demais, se não enjoa, se não cansa, se não faz mal à sua saúde. É melhor diluir.

Se eu não explodisse, eu não escreveria.

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