O campo de girassóis é enorme. Bem de longe parece paisagem de filme.

Mas se você chega perto e toca nas flores, elas parecem plástico. As folhas estão todas rasgadas, os caules são fracos e vergam com o vento.

Tem um rio também. Ele é bonito,mas tem uma represa. Na represa você observa que entre as rochas escapa água.Tem infiltrações por todo lado. Mas mesmo assim, as rochas não desabam.
O rio já secou algumas vezes, mas os habitantes da vila desviaram uma nascente e conseguiram enchê-lo novamente. Mas as infiltrações na represa foram aumentando. Mesmo assim,ela não desaba.

É curioso, logo após o rio tem um deserto também. Lá só tem areia e mais areia. É seco, quente como o inferno, muito claro, o ar é difícil de respirar.

Do outro lado, longe do deserto, tem uma floresta incrível. Ela é completamente selvagem, nenhum humano jamais pôs os pés dentro dela. Intocável,perigosa,assustadora.

Tem bichos mortais em todo lugar, armadilhas, plantas venenosas, é fria, úmida, sombria.

E para concluir, no fim, tem uma vila. Completamente destruída e inabitada. Lá só tem casas abandonadas e queimadas, muita poeira e um vazio,um silêncio que só as vilas abandonadas possuem.

Tem um gosto de tristeza no ar também, das muitas pessoas que morreram ali.

No começo de tudo, tem uma criança. Descalça, com roupas velhas e surradas. Ela tem os cabelos soltos, o rosto sujo e dois olhos enormes. Olhos que parecem abrigar o universo inteiro e todas as estrelas. Mas maior do que os olhos é seu coração. Ela tem o mar inteiro dentro dela.

Ela chega correndo e passa pelo campo de girassóis. Não consegue ver como eles estão frágeis,mas quando ela passa a terra fica úmida e de repente todos os girassóis começam a crescer e ficarem mais fortes. As folhas ficam vivas, as pétalas macias e eles crescem e espalham orvalho por todos os lados.

A menina passa correndo também pelas margens do rio. E de repente a represa estoura e o rio fica tão cheio que quase transborda. Os habitantes da vila saem de casa e sorriem pra menina.

Agora eles tem água o ano todo e nenhuma parte da vila vai ser privilegiada ou negligenciada.
O rio corre tão rápido que respinga pequenas gotas nos braços da menina e ela sorri.

Mas continua correndo até chegar no deserto. Que continua deserto, porque um deserto é sempre um deserto. Mas a menina pára um pouco de correr e fica andando entre suas areias douradas. Percebe que o calor ali é acolhedor e abre os braços pra aproveitar o sol.
Imediatamente algumas pequenas nuvens se formam e uma chuva de verão acontece, sem apagar o sol.

A menina dança na chuva e algumas pequenas poças surgem no chão.
Aparecem alguns lagartos e algumas plantas típicas de desertos começam a nascer.

A menina se despede e continua andando,dessa vez bem devagar.
Ela entra na selva com cuidado e ouve o barulho dos animais preparando o bote.

As árvores se fecham em volta dela e tudo parece assustador demais, porque afinal, ela é só uma menina. Os animais chegam perto, mas ela percebe que é só para beber a água que cai das suas mãos.

Forma-se uma pequena nascente onde ela está parada e todos os animais matam a sua sede.
A menina imediatamente chama um pedaço do sol do deserto e ele vem pra aquecer a floresta.

As árvores deixam a luz do sol passar e esquentar todos os pedacinhos da floresta, que agora virou um lugar tropical, com temperatura amena. Não existem mais barulhos ameaçadores, os animais ficaram dóceis e não faz mais tanto frio.

A garotinha continua a andar para chegar até a vila. Ali o vento é tão forte e tem um barulho de choro de criança pequena. Ela sente uma angústia nos ossos e cruza os braços pra se proteger.

É muita tristeza, muita dor e muito passado impregnado nas paredes das casas e nos espectros de todas as pessoas que continuam a vagar por ali.
A menina fecha os olhos e começa a chorar baixinho, fazendo uma prece.

Imediatamente começa a se formar uma onda enorme,muito grande, que surge lá de longe,vem e arrasta tudo que vê pela frente. A vila fantasma é completamente destruída pela onda, que preenche todos os cantos violentamente até tudo se tornar nada e a menina se tornar parte do mar.

Se eu for o campo de girassóis que são lindos de longe, mas quebradiços e frágeis de perto, eu quero que você me dê força pra crescer até o máximo que eu puder.

Se eu for o rio que tem uma represa e várias infiltrações porque estão tentando me limitar e me conter, eu quero que você arranque o que me sufoca e me faça ser livre e inteiro novamente.

Se eu for o deserto seco e inóspito, eu não quero que você tente me transformar em outra coisa. Eu quero que você me aceite árido como eu sou, porque eu também posso ser acolhedor, basta que você saiba se adequar. Acredite, tem gente que nasceu pra viver aqui.

Se eu for a floresta escura e sombria, com meus milhares de animais selvagens e armadilhas fatais, eu não quero que você tenha medo de mim. Porque às vezes eu só preciso de um pouco de calor e um pouco de água pra voltar a ser primitiva  e dócil como eu sempre fui.

E finalmente, se algum dia eu for a vila abandonada, que mesmo depois de muito tempo ainda conserva seus fantasmas e sua aura de tristeza e despedida, eu quero que você me faça esquecer o passado e abandonar o abandono.

É preciso também saber a hora de destruir o que ainda resta de ruínas, apagar o que passou e deixar o ambiente limpo e livre para as próximas histórias que ainda virão.

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