*Texto escrito em 04/2011 *

Hora certa, lugar certo. Mas o resto tá tudo errado. Eu vejo ela,com uma roupa que eu não conheço, o cabelo tá diferente, tá até usando o óculos de grau em público. É,ela mudou. Parada aqui de onde eu tô parece uma estranha. Eu também mudei. Ela vai notar. O jeito de falar,o jeito de pensar, o jeito de agir. Também eu sou um estranho pra ela.

Mas nessa hora ela vira e me nota. Sorri meio sem graça e acena com a mão.Como se eu fosse um conhecido qualquer. Eu me aproximo, ela tá com o prato e bandeja na mão, esperando ser servida.

“Oi,bom dia. Esse é o melhor restaurante ruim que eu conheço.” E sorri, como quem diz ‘não é ótimo que a gente seja tão casual?’
E eu sorrio também, pra dizer que é ótimo sim, eu concordo.

Faço meu prato e vamos pagar. As coisas mudaram, ela agora paga no dinheiro.Eu pago no cartão. Ela percebe, mas não fala nada. Continua sorrindo.
Vamos pra uma mesa e passamos um tempo calados, comendo. Depois começamos a falar de comida, daquele shopping, dos nossos amigos em comum, contar as novidades.

“Mas nossa,você não sabia disso? Meu Deus, todo mundo sabe”
“Nossa, mas como assim? Até parece com o que aconteceu comigo mês passado, eu não te disse, mas”

E assim vai. Até eu abrir a carteira pra guardar o cartão e botar o maço de cigarros na mesa.
Ela pára e me olha. E de repente parece que aquele teatro todo não serviu de nada. Todos os sorrisos ensaiados começam a ruir. Ficamos meia hora falando de assuntos superficiais para não chegar naquele ponto. Mas chegou.

“Desde quando você fuma?”
“Ah,não faz muito tempo não.” E eu balanço os ombros como pra dizer que aquilo não é nada.

“E os seus pulmões?” Ela é incisiva.

“Não, não tem problema. Eu não trago não. Só tem problema se tragar”

Ela fica calada,a testa enrugada. Se fosse qualquer pessoa no mundo ,apenas sorriria e deixaria pra lá. Quer foder os seus pulmões ,foda, vai todo mundo morrer mesmo. Mas ela não. Ela se importa. A pergunta mais importante ela não faz. Mas os olhos dela dizem. O rosto dela pergunta. As mãos paradas do lado do prato gritam.

“Por quê?”
Eu fico calado e olho pra outro lado. Não preciso me justificar com ela nem com ninguém. Eu faço o que quero e sim, os pulmões são meus e eu paguei pelo cigarro.

“Você mudou mesmo.” ela diz. E se encosta na cadeira, desiste de comer, coloca as mãos no colo.
“Você também” e eu não falo como acusação, mas soa como uma.

Ela dá um sorriso triste. Olha pra baixo.

“Foi muito tempo, sabe”
“Não foi tanto tempo assim.”
“Foi sim. Pra gente foi.” e ela me olha meio desesperada.” Eu costumava saber tudo sobre você.Tudo, tudo. E você sobre mim. A pessoa que eu conhecia não fumava. Não pagava no cartão. Não era você. Você é um estranho pra mim. Quando foi que a gente se perdeu um do outro?”

Tá aí. Eu tinha planejado ser leve e casual. Amistoso porém distante. Tantas coisas novas pra contar. Achei que ela fosse deixar isso pra lá. Mas ela não deixa. Isso não mudou. Ela nunca deixa. E isso é um saco.

“Eu também não te conheço mais. Mas a gente pode se conhecer de novo. E começar tudo do zero,que tal? Vai ser ótimo.Vai ser melhor.”
“Não.A pessoa que era meu amigo foi embora. E quanto a você, eu não quero conhecer você. Eu não consigo concordar com as coisas que você pensa agora. Você fuma só por fumar e acha que é legal fazer as coisas só por fazer, sem pensar nas consequencias. Eu preciso de bem mais do que isso. Não vai dar certo.”

“Não faça isso. Eu me importo com você. Eu quero que isso dê certo.” e pego na mão dela.
“Eu não consigo acreditar em nada disso. Desculpe.” e ela tira a mão da minha não como se sentisse alguma coisa, mas só porque seria estranho segurar a mão de alguém que você não conhece.

Mas ela está certa. O pior é saber disso. Não tem como voltar a ser como era antes. Aquilo lá morreu e ficou pra trás. De vez. Digo a única coisa que eu poderia dizer.
“Eu não queria que as coisa fossem assim.”

” E eu queria voltar no tempo.” E ela me olha com tristeza,porque dá saudade daquilo que a gente era. E simplemente não conseguimos mais alcançar.

Ela segura no meu rosto e por um segundo eu volto no tempo. No tempo em que ela era tudo pra mim. Mas é bem rápido e eu volto a não sentir nada.Ela percebe e dá um sorriso triste,tirando a mão.
Pega a bolsa e se levanta pra ir embora. Não olha pra trás nem por um minuto. Eu olho pros pratos e ainda sobrou comida. Sobrou tempo e faltou conversa. Faltou sentimento e sobrou a gente.
Me levanto pra ir embora também e lembro que se fosse antes,por ela, eu pararia de fumar.

É uma pena que as coisas tenham mudado tanto. A gente mudou e se perdeu. Sinto muito. Podia dizer que queria voltar no tempo com você,mas seria mentira. Eu gosto mais de quem eu sou agora. É uma pena mesmo.

Acendo um cigarro e vou embora.

Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.” C.F.A.

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