Se eu te dissesse que eu ainda sou uma criança, você provavelmente iria rir e dizer que não parece não. Ou que tá na cara, sei lá.

Mas olha, escuta bem o que eu tô dizendo : eu sou só uma criança. Eu finjo bem ter tudo sob controle. Eu finjo saber o que eu quero e planejar o futuro. Mas é tudo mentirinha. É fingimento. É faz de conta. E você ainda acredita, seu bobo.

Acredita porque eu sorrio, gargalho, finjo que tá tudo maravilhoso. Se você me pergunta se tá tudo ok, eu levanto o polegar, pisco o olho e conto uma piada. E aí você sorri ou revira os olhos e diz ‘ah, mas ela tá ótima’.

Eu sou ótima atriz. Se tivesse uma premiação para a maior fingidora do mundo, eu ganharia com certeza.

Você acha que me lê e que meus sentimentos estão todos estampados na cara. Fato, alguns deles estão mesmo. Mas a maioria você nem mesmo suspeita, porque estão guardadinhos a sete chaves e eu não vou falar pra você, não adianta perguntar.

Eu vou falar se eu quiser ou achar que você é legal o suficiente pra saber, mas se você disser algo do tipo ‘esquece’ ou ‘ deixa isso pra lá’, eu vou dizer ‘ok’ e vou ficar calada. O que significa que obviamente não tá nada ok e eu não esqueci nadinha e você é um idiota que acreditou nisso.

Às vezes, só um pouquinho, o que eu mais quero é gritar pra você esquecer todas as minhas redes sociais, os comunicadores instantâneos, esse blog e a internet inteira. Telefone, SMS, carta, sinal de fumaça,seja lá o que for. Esquece tudo e só olha pra mim. Olha pra mim de verdade, só por um minuto e você vai saber que eu não tô bem nada, que é tudo muito pior do que você pensou.

Eu achei algumas vezes,ultimamente, que podia ser adulta. Não muito,mas o suficiente pra arcar com os pesos das minhas decisões, pra ir em frente nas minhas escolhas e pra conseguir ter relações saudáveis com outros seres humanos. Mas você veja só, não deu.

No meio do caminho eu tô cheia, cheia de problemas. Eu não quero mais rede social nenhuma, eu não queria nem escrever aqui. Eu não queria nunca mais ter que falar com ninguém. Nem com as pessoas que eu adoro, porque no fim das coisas sempre dá errado gostar demais de alguém. Alguém disse que tem que ter as medidas certas, sei lá, eu não tenho a menor ideia do que é isso.

Eu sou só uma criança e eu tô muito assustada com esse mundo de adulto. Toda vez que eu subo em cima dos saltos da minha mãe e acho que vou conseguir dar uns passinhos até a sala,eu caio. Caio feio e me machuco toda.

Ela chega, briga comigo e eu fico chorando sozinha porque não consegui agir feito gente grande e tá doendo meu arranhão.

Eu sou aquele tipo de criança cheia das grandes históóórias e grandes teorias, mas ninguém quer mais ouvir minhas coisas. Os que ouvem não entendem ou dizem pra eu calar a boca, que eu só falo besteira mesmo. E no fim eu acabo batendo a porta e gritando ‘ninguém me entende!’ porque todo mundo é chato e ninguém me entende mesmo.

Eu sou uma criança assustada com medo de tudo, porque todo lugar que eu olho tem um monstro diferente. Embaixo da cama, dentro do armário, no espelho, no teto, nas sombras da cozinha. Eu só quero mesmo é me esconder debaixo do lençol e esperar o dia amanhecer porque quando o dia amanhece não tem mais monstro nenhum. Mas tá demorando TANTO pro dia amanhecer, que droga, debaixo desse lençol eu não consigo respirar e nem dormir.

Eu tentei,sabe. Eu tentei muuuito brincar de gente grande e fingir que eu conseguia fazer tudo que eu queria. Que eu era demais. Que nada ia me abalar nunca. Eu sorri e balancei a cabeça, eu abracei um monte de gente que eu nem conheço, eu desfilei por aí vestindo roupas da minha mãe, eu fingi que era super legal e madura, que eu aguentava todos os problemas dos outros e ainda os meus.

Mas não deu. Não dá mais pra mim. Eu tropecei de novo nos meus próprios cadarços cor de rosa e caí de bunda no chão. Chorei mais de meia hora e não apareceu ninguém pra vir assoprar minha ferida. Eu não vou mais fingir ser adulta e fingir que eu aguento. Que eu consigo. Que tá tudo maravilhoso pra mim. Que você pode vir aqui e me machucar do jeito que quiser e eu não tô nem aí. Eu não sou adulta. Eu não sou super forte,super madura, super legal. Eu não sou super nada. Nem feita de aço.

Eu sou frágil. Mega super master hiper ultra power frágil. E quando me machucam,dói sim.
E eu não fico procurando motivos e criando gráficos ou teorias de porque me machucaram ou como foi que isso aconteceu. Porque…lembra? Eu sou criança e crianças não fazem isso.

Eu sou só uma criança e a única coisa que eu sei é que tá doendo. Tá doendo muitão e eu já botei remédio e não pára de doer. Talvez incomode na hora de dormir. E sim,eu vou chorar.

Eu vou chorar de soluçar, de ficar com nariz vermelho, até encharcar o travesseiro. Porque doeu, porque me deu um susto, porque, porque, porque é ruim. Eu vou reclamar sempre que puder, vou xingar, franzir a testa, fazer biquinho e cruzar os braços.

E sim,eu vou ficar um tempinho aqui debaixo do lençol. Não é a melhor solução,mas é o que eu quero fazer. Eu vou ficar bem quietinha, escondida, esperando os monstros imaginários irem embora.

Ué,eu sei que eles são imaginários, seu bobo. Mas eles me assustam mesmo assim.

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