Quem sente coisa demais na verdade não sente nada.

Tem pessoas e pessoas no mundo, todas especiais. Tem gente que, como eu, sente muita coisa. Tudo. Ao mesmo tempo, na maior velocidade e na maior intensidade possível.

É como viver dentro de uma realidade aumentada. É mais que 3 dimensões apenas. É tempestade em pingo d’água. É sétimo, oitavo, nono sentido.


É como se a vida girasse em torno de você como um furacão. Depressa, cheia de barulhos, cores, sensações. Tudo mais forte do que as outras pessoas enxergam.

Pra quem vê a vida assim, é normal dizer ‘mas você não vê isso?’, e receber como resposta ‘ah, mas isso é besteira, deixa pra lá’. Mas nunca é besteira. É um drama, é uma tragédia, são narrativas gregas, telenovelas mexicanas, exagero, hipérbole, pleonasmo.

O copo nunca está metade nada, ele tá sempre transbordando. É coisa demais pra uma pessoa só, porque esse mundo é insano se você pára pra ouvir cada pequeno ruído.
Então o que acontece é que nos fechamos numa bolha. Ouvimos,vemos e sentimos tanta coisa que ninguém mais no mundo percebe, que não aguentamos. Vivemos sedados. Inertes. Apáticos. Adormecidos.

Porque o único jeito de aguentar estar vivo sentindo a vida no volume máximo é sedando os sentidos. É se perdendo. É se afastando.

E você se acostuma com essa bolha. Porque cansa demais levar tudo tão a sério. Cansa, machuca, estraga tudo. E você só quer fugir.

Mas aí, eis que às vezes algumas coisas acontecem. Coisas que despertam você. Coisas que conseguem estourar a bolha e fazer você se sentir vivo novamente. E sim, no volume máximo, com todas as sensações exageradas de novo. Incomoda.

É violento, é assustador, é repentino, é desconfortável.

Eu fico em pânico tentando achar a bolha de novo pra me esconder e não ser obrigada a sentir tudo isso de novo.

Eu quero anestesia eterna, não dor. Eu quero meus fones de ouvido pra não poder ouvir nada e poder sorrir pras pessoas como se ouvisse seus problemas.

Eu quero conseguir trancar todas as sensações erradas nas gavetas certas. Trancadas. Pra não fugirem do controle nunca mais. E poder botar a chave no pescoço me gabando de não sentir nada pra sempre, de ser feita de papel e não de milhares de terminações nervosas em conflito.

Eu quero não tremer, não pensar, não esperar, não quero nem mesmo sorrir porque todos os sorrisos acabam em lágrimas no travesseiro. E eu não quero chorar nunca mais.

Quero mesmo é apenas preencher os espaços com a minha presença, mas não estar ali de verdade, de corpo inteiro. Apenas sorrir,acenar e esquecer. Voltar pra casa e dormir em paz, sem sonhos reais, sem memória, sem reflexão. Sem nada.

Eu quero voltar a não sentir nada e parar de sentir coisa demais. Eu quero filme de ação e nunca mais comédia romântica,drama e filme de guerra.

Quero conseguir apenas passar pela vida, como todo mundo passa. Sem permanecer.Sem criar vínculo. Sem enraizar.

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