Eu voltei,mas a casa tá diferente.

Antes,a minha tranquilidade era saber que eu podia ficar longe por muito tempo, mas quando voltasse,a casa ia estar ali, do jeitinho de sempre. Me esperando.

Eu voltava e me deitava na rede. Só levava um tempinho pra me acostumar de volta, mas depois era como se eu nunca tivesse saído dali.
Mas dessa vez não. Dessa vez a casa tá diferente. Eu sei que eu também posso ter mudado. Mudei? Aparei os cabelos troquei os óculos só, não é uma mudança tão grande.

Mas a casa não. A casa mudou completamente. Pra você que não vem sempre por aqui, não deve parecer. Deve parecer que tá tudo igual,talvez com uma ou outra mudança decorativa, nada demais.
Mas isso é porque voce não olhou direito. Você nunca olha. Afinal,é uma casa. E você entra e nem olha ao redor.
Mas eu passei muito tempo prestando atenção nessa casa. E foi só colocar os pés no carpete de boas vindas que eu notei que tinha alguma coisa diferente.

Resolvi deixar pra lá. Entrei, joguei as malas todas na mesa. E a mesa desabou,porque ela não aguenta mais os meus pesos.
Fui na cozinha, abri a geladeira e não tem mais iogurte, brigadeiro e meus doces favoritos. Agora só tem legumes, coisas light e alimentos saudáveis, que eu sei que são necessários, mas eu não gosto de comer.
Então,resolvi tirar um cochilo na minha rede. Mas que surpresa, ela não está mais lá. Em seu lugar tem uma poltrona que parece agradável.

Me acomodei, mas não consegui dormir. A poltrona não é muito macia, parece aqueles móveis novos que ainda precisam de anos e anos pra ficar confortáveis.

Resolvi ir pra cama, que não é mais aquela de madeira. Essa é de aço. E o colchão é muito duro, não tem travesseiros. Parece que é ortopédica e vai fazer pras minhas costas, mas droga, eu só queria um lugar onde conseguisse dormir. Aqui eu não consigo.
Fui pra sala já chateada e sentei no tapete. Foi aí que eu comecei a admitir o que estava escondendo de mim mesma: a casa mudou.

E não foram só os móveis. Ela tá com uma outra cor nas paredes,não tem mais aqueles quadros feios e nada práticos pendurados.Só tem alguns espelhos e relógios aqui e ali. Menos é mais. Tem pouquíssimas coisas e tudo é novo,funcional e adequado.Todos os meus objetos favoritos,aqueles que davam trabalho e eram antigos,mas que eu gostava muito, desapareceram.

Será que se eu olhar em alguma dessas portas eu vou achar tudo?  Não, acho que foi tudo pro lixo mesmo. Se você olhasse a casa agora, iria me dizer que eu tô louca.

Porque é tudo tão moderno e sofisticado. E agora eu só tenho o que preciso, tudo que tem em todas as outras casas do mundo.
Mas eu confesso a você que eu queria minhas coisas de volta. Eu sei,eu sei que os vasos de flores davam trabalho pra cuidar. Eu sei que os quadros não eram muito bonitos. A decoração também,ninguém entendia, só eu. Nada daquilo era muito prático. Mas era único. Só tinha aqui e em mais nenhuma outra casa do mundo.

E era assim que eu me sentia confortável. Na minha rede quase caindo aos pedaços,mas que me fazia ter o melhor sono do mundo.

Na minha cama de colchão macio, que ok, às vezes dava dor nas costas,mas era perfeita pra mim. E as minhas comidas calóricas na geladeira,ah,elas me faziam tão feliz, mesmo fazendo mal de vez em quando.

Agora eu não me sinto mais acolhido aqui. Eu não me sinto confortável. Faz uma semana que eu durmo no tapete e como iogurte light fingindo que é normal. Eu minto pra mim mesmo que é uma delícia,que tá tudo ótimo,tudo melhor que antes até. Sorrio e só consigo pensar em quando vai ser a próxima viagem e será que eu já posso ir fazendo as malas?
Aqui não é mais o meu lugar.

Ok, a culpa é minha também. Foram tantas e tantas viagens de negócios. Eu tinha muita coisa pra resolver. E a casa foi ficando sozinha,sozinha. E outras pessoas cuidaram dela quando eu tava fora. E cada mudou uma parte da decoração, foi melhorando aqui e ali. E eu fico feliz por isso. O problema é que ela ficou muito diferente pra mim.

É como dizem,às vezes os nossos defeitos são as coisas que nos fazem únicos. Essa casa de agora é ótima. Mas não é mais a minha casa. Porque a minha casa não era ótima,ela era minha. E parecia comigo,que também não sou ótima. Eu sou eu,tenho uma porção de defeitos,passo muito tempo fora e vivo gostando de coisas que ninguém gosta. Os meus quadros feios. As minhas flores trabalhosas. As cores das paredes que não combinavam entre si.

É, eu só queria dizer isso pra minha casa. Dizer que eu percebi as mudanças. Cada pequena mudança. Eu percebi.
E que eu sinto muito por cada morador temporário que melhorou seus defeitos e fez você ficar parecida com todas as outras casas do catálogo da imobiliária, igualzinha.

Eu não vou mudar de casa, porque de qualquer jeito, essa é a minha casa e a gente não abandona nosso lar só porque ele mudou.
Mas hoje,só hoje,sabe. Eu queria dizer que não parece minha casa. Parece um país distante,nada acolhedor. E eu sou a estrangeira tentando se adaptar,embora nós falemos idiomas diferentes.

Hoje eu sou estrangeira na minha própria casa. E ela é estrangeira pra mim também.

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