Ana era uma estrada.

Longa,útil e cheia de surpresas.Como todas as estradas.Um dia,Ana conheceu Pedro.E ele gostou tanto,tanto dela,que cuidou de seus pedaços arrancados pelos anos de uso e renovou sua cor,que já andava meio gasta.Ana ficou muito feliz e se tornou uma estrada daquelas agradáveis,que dá gosto de passear.

Famílias lhe percorriam nos feriados rumo à praia,ônibus escolares cheios de crianças indo pra escola,casais de namorados
fugindo do caos da cidade em dia de semana.Ana adorava servir àquelas pessoas.Adorava aquele movimento todo,aquele
barulho,até mesmo quando os carros passavam em alta velocidade.Afinal,ela era uma estrada e estradas foram feitas pra
contemplar a vida e suas alegrias.

Mas Pedro gostava mesmo dela.De verdade.Começou a se incomodar com a quantidade de veículos transitando.Com a
velocidade e a violência de suas rodas.Com o lixo que atiravam pelas janelas dos carros.Resolveu colocar placas para diminuir a velocidade.Não adiantou.Jovens ainda passavam de madrugada a mais de 100 por hora.

Pedro começou a inventar desvios no meio da estrada para lugares fictícios,como Cretinolândia e Casa da Sua Mãe,para
ver se assim diminuíam a velocidade.Funcionou até.Agora as pessoas se perdiam e evitavam a estrada.Mas Pedro não se contentou.Ele não queria que ninguém mais passasse pela estrada.Pela sua estrada.Sem pedir autorização pra prefeitura,criou um enorme desvio e mudou Ana pra lá.Ela se tornara agora uma ruazinha particularnum bairro de idosos e a estrada principal agora era outra.Ana ficou triste,mas aceitou.

Agora só passavam velhinhos a pé nas manhãs de domingo ou seus netos no sábado brincando com as outras crianças.Isso
ainda fazia Ana sorrir.E isso tirava Pedro do sério.Ele não queria que ninguém colocasse os pés na sua estrada,a não ser ele.Mostrando indícios de loucura,arrumou pedaços de madeira e colocou cercas separando a estrada de todas as casas.Era
realmente impossível pisar em Ana agora.Os velhinhos tinham que dar a volta no quarteirão passando pelos jardins dos
vizinhos para ir à padaria.Ana estava arrasada.Reclamou e brigou,mas Pedro dizia que era amor.Que ele só estava cuidando e protegendo de todo o mal que as outras pessoas poderiam fazer contra ela.Ana,que nunca tivera alguém cuidando tanto dela assim,se conformava e aceitava.Era um amor estranho,mas quem era ela pra saber de amor.Era amor.Não era?

Até que um dia,uma borboleta veio e pousou em Ana.Uma garotinha da vizinhança viu e pulou a cerca pra correr atrás dela.Ana gargalhou como há muito tempo não fazia,com essa cena tão adorável.Nesse exato momento,Pedro dobrava a rua.Finalmente compreendeu que não importavam seus esforços,alguém sempre ia encontrar e tocar Ana.E fazê-la sorrir mais do que ele fazia.Num ímpeto de amor e completamente fora de si,Pedro voltou mais tarde com uma escavadeira.Fez buracos,jogou ospedaços da cerca por todos os lados e arrumou pedras e cimento pra cobrir a estrada.

Destruiu Ana pra sempre.Porque se não fosse só sua estrada,então não serviria de via de encontro pra mais ninguém.

[…]
Às vezes a gente é Pedro.A gente começa cuidando e protegendo,mas em algum momento parece mais certo destruir.

Ás vezes também,a gente é Ana.Encontramos alguém importante,damos espaço e quando notamos,estamos cercados de
cercas e placas por todos os lados.

Não é amor se têm cercas.Não é amor se a gente não pode ver ninguém ao redor ou adiante.Não é amor se por apenas uma borboleta,a gente destrói.

Esse texto é na verdade uma prece.De Natal,de Ano Novo e principalmente,de futuro.

Que nos tempos que estão por vir,a gente não seja cerca.A gente não seja placas.A gente não seja pedras.Que a gente saiba amar de verdade e principalmente,se deixar ser amado.Que a gente seja apenas estrada.E deixe os outros serem também.

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