Wait for it.

Já era meio tarde,umas dez da noite.Tava voltando da casa da minha irmã,jantar chato de família,aquelas noites que você passa a noite olhando pro relógio e não vê a hora de acabar.Entrei no metrô,achei uma cadeira livre e me sentei.Coloquei os fones de ouvido e me acomodei pra esperar a viagem até a minha casa.Lembrei do pacote de biscoito na bolsa e  comecei a comer.Num gesto descuidado,quando fui colocar dois biscoitos ao mesmo tempo na boca,ia derrubando o pacote inteiro no chão,se não fosse o estranho ao meu lado ter conseguido segurá-lo um segundo antes de virar farelos.Já ia abrindo minha boca pra agradecer,mas aí…

“Você hein,sempre desastrada.”

Sorri pra ser parecer casual e simpática.Ele devia me conhecer de algum lugar,mas eu não tinha nem idéia de quem ele era.

“Desculpe,nós nos conhecemos de algum lugar? Não me lembro…”

“Bem,isso vai parecer cantada barata e você odeia esse tipo de clichê,mas nós nos conhecemos sim.Nas lembranças do seu futuro.Do nosso futuro.”

Nesse momento meu sorriso congelou,porque obviamente o cara devia estar bêbado,ou drogado,ou os dois.Melhor não contrariar.Dei um meio sorrisinho e balancei a cabeça.O vagão estava praticamente vazio,só tinha uma senhora de idade sentada longe.Droga.

“Huuuuum.Ok.”

“Não,é sério.Não precisa ficar com medo de mim.Eu sei que a essa hora você deve estar bolando milhares de hipóteses nessa sua cabecinha imaginativa,mas eu juro que tô falando sério.Ou você acha que eu ia perder meu tempo se não valesse a pena?”

Ah,então era pior.Ele era só mais um babaca às dez da noite de uma terça-feira querendo se dar bem.Por que é que sempre tem gente esquisita nesses transportes coletivos hein? E por que eles sempre sentam do meu lado e querem conversar?

“Olhaqui cara,eu não sei quem você pensa que é,mas fique longe de mi…”

“Tá vendo só,esse é o problema.Eu sei que aí dentro da sua cabeça,por aproximadamente um vírgula cinco segundos você pensou ‘esse cara me conhece,talvez ele esteja falando sério’.Mas você nem sequer deu chance a isso.”

Em vez de se perguntar tanto ‘Por que,por que,por que??’,você devia ao menos uma vez se perguntar ‘Por que não?’

E com isso ele sorriu.E o sorriso era tão bonito e me fez sentir como quando eu era criança e acordava com cheiro de café em casa,sabendo que era amada.Me fazia sentir segura,completa.Era uma sensação de casa.Só por isso eu deixei ele continuar.Não por causa das covinhas ou dos olhos castanhos.Eu não sou tão superficial assim.

“Sabe,eu voltei aqui,justamente pra esse primeiro dia em que a gente ainda vai se conhecer,pra tentar fazer diferente.Pra que daqui a alguns anos,as meninas ainda tenham uma família feliz e completa pra se apoiar.A Luisa só ficou tão rebelde depois da separação,você sabe.E a Marina,faz um mês que eu não falo com ela no telefone.Mas é mais do que isso.É sobre nós.Eu ainda quero ter o seu sorriso preguiçoso do meu lado como a primeira coisa que eu vejo de manhã.Ainda quero olhar você desenhando mordendo os lábios e apertando as sobrancelhas,completamente concentrada.Eu continuo querendo,sempre,ser o único a te deixar com luzes nos olhos.Eu sinto saudade disso.

E aí ele fez uma carinha tão triste,de cachorro jogado da ponte.Aquilo cortou meu coração de uma forma….E olha,eu não sou a pessoa mais sensível do mundo.Mas de algum modo sofrimento dele também me fazia sofrer.E eu queria arranjar um jeito de parar aquilo,simplesmente de fazê-lo sorrir de novo pra mim.

“Mas o que deu errado? Como é que eu posso consertar? Como?”

“Desde hoje,quando você recusou o meu convite e eu tive que insistir milhares de vezes até conseguir sair com você.Você dizia que as coisas não podiam ser tão rápidas assim,que isso de amor à primeira vista não existia,que tínhamos que encarar a realidade,que isso não ia dar certo assim.Daí pra frente sempre fui eu.Eu corri atrás de você pra namorarmos,depois pra casarmos,pra nos mudarmos pro campo.Você sempre foi a dama na janela e eu o Romeu que sempre leva água na cabeça,mas não desiste nunca.Mas isso foi me cansando.Você não valorizava o nosso amor,não se entregava,não ficava vulnerável nunca.Sempre inalcançável,sempre na janela.Até o fim.E um dia eu cansei e foi o nosso fim.”

Ele falava e tudo aquilo se delineava em imagens perfeitas na minha mente,com zoom e fotografia perfeitos.A casa no campo.As meninas,com os olhos dele e os meus cabelos.Brigas.Silêncio.Papéis assinados,lágrimas.Uma sensação de ‘o que foi que eu fiz?’ apertando o meu peito.

“Sabe,eu voltei justamente pra esse momento,alguns minutos antes de nos conhecermos,pra mudar as coisas.Pra fazer diferente.Porque eu não quero desistir de você.Mas pra isso eu preciso que você acredite.Que você dê uma chance ao inesperado e a todas aquelas bobagens românticas que contam pras crianças.Eu sou o seu príncipe encantado.Eu não tenho cavalo branco,durmo de meia e tenho milhares de defeitos.Mas eu te amei desde o primeiro minuto,assim como você a mim.Então daqui a pouco,dê uma chance ao acaso.Coisas boas e pessoas incríveis não acontecem sempre.E ah,pode mencionar no segundo ou terceiro encontro que você adorou minhas covinhas.”

Um solavanco.Eu acordo de um sonho completamente bizarro,do qual não conseguia me lembrar de absolutamente nada.No chão,meu pacote de biscoitos.A música ainda tocava nos meus ouvidos.O metrô parou e eu desci.

“Just like the movies. That’s how it will be. Cinematic and dramatic with the perfect ending…”

Muita gente nas escadas do metrô,muito barulho,horário caótico.Alguém esbarrou em mim e todos os meus papéis caíram da minha pasta e se espalharam pelos degraus.Um cara parou pra ajudar a recolher tudo e olhou pros desenhos.

“Nossa,você é talentosa.Aprendeu em curso ou é vocação?”

“Costumo dizer que desde o jardim de infância,nunca parei.”

Ele me deu os últimos desenhos que faltavam e sorriu.Duas lindas covinhas apareceram nas suas bochechas.

De repente o mundo à volta ficou meio borrado e desfocado,até o barulho das pessoas pareceu diminuir.

Nós nos levantamos,eu sorri de volta e acenei com a cabeça,agradecendo.Dei as costas e já estava indo embora,quando ele gritou.Virei de volta e ele com as mãos nos bolsos,disse:

“Eu sei que vai parecer loucura, mas você aceitaria o convite de um estranho pra tomar café às dez horas da noite de uma terça-feira?”

Eu sorri de volta e de repente o mundo pareceu voltar ao lugar.

“It’s not like the movies, but that’s how it should be. When he’s the one, You’ll come undone And your world will stop spinning, and it’s just the beginning.”

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