Mas não agora.

Pichação

Um segundo antes do meu coração virar pedra,

eu abri o peito e vi você

rasbicando com a unha no cimento ainda fresco:

“Em quinze  de novembro de dois mil e quatorze,

eu

estive

aqui.”

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Something

Já me perguntaram o que você é.
E não foram poucas as vezes.
“Ele é teu namorado?”
“Ele é só teu amigo?”
“Ele é teu…?”
Mas eu só abano a cabeça e respondo que ninguém pertence a ninguém nessa vida.
Todo mundo é livre.
Não é assim?

Mas, pra mim mesma, quando eu tô sozinha e ninguém está olhando,
Eu sei exatamente o que você é.
Você é aquela coceira que eu sinto nas minhas veias e nas minhas terminações nervosas.
Dentro do meu sangue, quando ele fica circulando quente e ansioso.
Você é o frio na minha barriga e na minha espinha ao mesmo tempo.
Você é o que faz os pelinhos da minha nuca se arrepiarem, e eu minto dizendo que foi o vento que entrou pela janela aberta.
Você é aquela agonia que me dá toda vez que eu te olho e fico na beirinha de um abismo, sem saber se pulo ou não.
Dá tanta vontade de pular.
Mas eu tenho tanto medo.
Nunca pulo.
Mas você é o próprio abismo, me olhando lá de baixo e esperando eu ter coragem de ir na sua direção a qualquer momento.
Você são os seus braços sempre abertos, que ficam me chamando que nem um ímã.
Você é o seu sorriso meio vacilante, que nunca sabe se está indo longe demais e sempre fica no limite exato pra me fazer ficar imaginando o que existe por trás dele.
Existe algo por trás dele?
Acho que eu tô só imaginando.

Você é tantas coisas ao mesmo tempo.

Mas não é meu.

Ninguém pertence a ninguém nessa vida.
Todo mundo é livre.

Que pena.

Do it again

Todo mês eu faço uma lista e colo na parede:
“A lista do nunca mais”.
Nunca mais cortar a franja sozinha, que dá desastre.
Nunca mais misturar uma bebida com a outra, que faz mal pro fígado.
Nunca mais espremer o tubo da pasta de dente quando já acabou, que não sai mais nada dali.
Nunca mais esquecer de ligar pra minha mãe, que dá saudade.
Nunca mais acabar o dinheiro antes de acabar o mês, que já prejuízo.
E principalmente,
Nunca mais ligar pra ele.
Ver ele.
Sentir o perfume da nuca dele.
Colocar minha língua junto da língua dele.
Dormir na casa dele.
Nunca mais ele.
Nunca mais.
Todo mês eu rasgo a lista antiga e faço uma nova.
Os nunca mais todos acabam virando nunca mais pra sempre.
Menos o último item.
Que não tem jeito de sair
nem da lista
nem de mim.

E só vai virar nunca mais,
quando eu colocar ele na lista
de nunca mais
dizer que vai ser nunca mais.

 

doitagain

Cinco minutinhos

Dizem que a pior ilusão de todas é a ortográfico-amorosa. Mas eu tenho que dizer que você escreve tudo certinho, mesmo que não fale a minha língua.

Mas de quem será que é a culpa? Se bem ali, no meio daquele porão sujo e enfumaçado, onde não dava pra ver quase ninguém e eu só fui porque era o único lugar que ainda vendia cerveja às 3 da manhã de uma quarta-feira, bem ali perto do bar, você gritou no meu ouvido pra perguntar se eu tava curtindo o som. Não tava. Era alto demais, incompreensível demais, gritado demais. Mas por algum motivo desconhecido pela humanidade, eu, que só gosto de bossa nova e samba cantado baixinho, na beira do ouvido, acenei com a cabeça e disse que tava. Que idiota.

Devia ter percebido logo de cara que a sua vibe era mesmo essas coisas que não dá pra entender e fugido. Mas não. Fiquei. Logo eu, que só sei fugir, fiquei por ali, segurando a cerveja gelada na mão, de cabelo trançado e vestido comprido, te olhando enquanto você apagava o cigarro com o seu all star branco preferido e sorria através da barba cerrada ruiva. Cara, que sorriso era aquele.

E quando a sua mão se entrelaçou na minha, já de manhã, quando o sol já estava querendo dar as caras por cima dos prédios e arranha-céus, você me disse: eu adoro voltar pra casa quando o dia tá nascendo, aproximadamente no mesmo minuto em que eu estava pensando: eu odeio.
Quer dizer, olha só pra nós. Eu vivo à base de cerveja, você, de uísque. Discordamos sobre política, religião, futebol, o Papa, o BBB, Star Wars e o quarteirão com queijo. Isso não vai levar a lugar nenhum, meus amigos dizem. Vocês não são Romeu e Julieta, muito menos Eduardo e Mônica, minha mãe me avisa pelo skype. A gente não harmoniza, a gente não se completa, a gente não se encaixa.

Porque somos ambas as peças do cantinho do quebra-cabeça, só que de pontas opostas. Somos dois yangs, dois potes de feijão achando que são sorvetes de flocos. Eu sei pela culpa que bate no topo do meu estômago toda vez que eu volto pra casa, de madrugada, depois de ter passado horas no seu apê tão distante do meu. Amar você é ter aquela sensação de ter escapado da dieta e me esbaldado em uma torta de brigadeiro todo dia. É como ficar de ressaca dia de semana ou voltar tarde pra casa dia de domingo. Errado, simplesmente errado. E não do jeito certo de errado. Do jeito errado mesmo.

Eu escrevi esse texto pra não esquecer disso. E também pra te dizer que eu, que sempre fui careta, finalmente achei um vício que eu não consigo largar e que me destrói aos pouquinhos, de um jeito gostoso e culpado, mastigando minha sanidade e satisfazendo minhas vontades mais insanas. Mas, como todos os vícios, vale o sofrimento e todas as bad trips só por aqueles cinco minutinhos de delírio, de imagens coloridas e de sair de mim.

E aí seus braços me puxam de volta pra cama e me enrolam feito edredom, quando eu ligo o soneca do despertador do celular e digo pra mim mesma: só mais cinco minutinhos. Só mais cinco minutinhos antes de ter que acordar e encarar o mundo real. Depois disso, eu juro que vou levantar daqui e te deixar de vez. Só mais cinco minutinhos. Eu juro.

Hoje

Mas é que o amor, ela disse, é que nem sexta-feira:
A  gente passa tanto tempo esperando chegar, e quando chega,
acaba tão rápido que nem dá tempo de aproveitar direito.
Quando a gente vê, já chegou a segunda.
E lá vamos nós, enfrentar tediosas quartas e infinitas quintas até que a sexta resolva aparecer
de novo.
Então, eu disse, é isso? O amor? Esperar que a segunda nunca chegue? Ou viver esperando por uma sexta que nunca vem?
Não, ela disse, porque para nossa sorte, hoje é sexta. E só nos resta dar de ombros e aproveitar de olhos fechados.

Devagar.

Cada segundo como se fosse a última gota, tomando até o restinho.
Como se não existissem segundas-feiras.
E o mundo todo fosse uma eterna sexta.

E talvez…
Talvez seja.

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Quando fevereiro chegar

diabranco

Se eu pudesse te dizer alguma coisa hoje, qualquer coisa, eu diria isso: não saia de casa. Não coloque aquela camisa vermelha, não use aquele seu perfume, mas principalmente, não saia de casa. Não desça do prédio quando o Rafa estiver lá embaixo, não bebam cerveja no ônibus, não venham pro carnaval de Olinda.

Porque em alguma daquelas ladeiras, bem ali nos Quatro Cantos ou na Ribeira, você nem sabe ainda, mas a gente vai se esbarrar no meio daquela multidão dançando frevo. E o Rafa vai beijar a Bia, seu amigo beijando a minha amiga e os dois deixando a gente sozinho, juntos.

 E enquanto seguramos vela, vamos nos olhar como quem diz e agora? E agora o quê? E agora o que a gente faz? Vamo beber, é carnaval, né. Vamo. Tais bebendo o quê? Cerveja. Eu também, toma aqui o resto da latinha. Massa. Tão demorando eles, né? Pois é. E se a gente fizesse que nem eles? Eita. E é? É. Bora? Olhe… Oxe, é carnaval! Que besteira. Hahahaha. Bestinha todo. Não ria, não. Venha cá. Pra quê? Venha me dar um beijo. É? É. Tá bom, eu vou. Venha.

 E se eu não quiser mais parar de te beijar? Vai ter que querer, meu filho, é carnaval. É, né? É. Mas se eu não quiser? Vai ter que querer. Vai ter que querer.

 E aí o primeiro beijo vai virar outros mil beijos, bem ali no meio daquela massa de gente colorida, fantasiada, naquela rua cheia de pedras que já viram tantos beijos, nós fomos mais um. Mais vários. Viramos uma coisa só, dividindo a multidão em duas bandas, um colado no outro naquele calor, no meio daquela festa e da música, e obeijo tinha gosto de cerveja gelada, de confete, de agitação. Era o sábado de Zé Pereira, e entre ladeira e ladeira, tantos blocos passaram pela gente levando seusestandartes, tantas orquestras com o ritmo acelerado feito nosso coração, tantos sorrisos mascarados, tantos brilhos nos olhos, tantos gritos emocionados cantando o Hino do Elefante. O carnaval passou pela gente, bem na nossa cara, e a gente não viu. Quando fomos ver, já era terça de noite e a quarta de cinzas tava só contando os minutos pra chegar e acabar com a festa.

Alceu agora tá encerrando o carnaval no Marco Zero, e eu, de flor no cabelo, você com a barba por fazer , nós dois chorando porque estava tudo acabando. Ninguém mais jogava confete, ninguém mais sorria, todo mundo parecia estar se despedindo de alguém ou de alguma coisa. Ou de tudo ao mesmo tempo. O carnaval estava acabando, eu e você também, e lá da Rua do Bom Jesus dava pra ouvir os últimos acordes de Quando fevereiro chegar. Agora só no ano que vem e quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente. Mas eu achava que ia morrer ali mesmo, sentada na sarjeta, te olhando limpar o rosto das últimas lágrimas. A gente não ia se ver nunca mais e isso parecia impossível.

Porque era só fechar meus olhos pra lembrar tudo de novo, a gente se beijando e rindo debaixo do sol quente, a sua camisa vermelha, meu batom vermelho borrado, e Vassourinhas tocando numa ladeira ali perto. Sem você, não ia ter carnaval. As alfaias iam parar de bater, os músicos iam voltar pra casa, iam mandar tirar o Galo daponte e cancelar os quatro dias. Mas pior do que isso é que agora você ia embora de vez e todo dia agora ia quarta de cinzas, pra sempre.

O sol já está quase nascendo e eu ainda não consegui te soltar. Já parei de chorar, mas não posso te deixar ir. Esse ano nem choveu na terça de noite, sempre chove. É o mundo se lamentando porque o carnaval acabou. Não quero que você vá. Mas vou ter que querer. Vou ter que querer. Nas casas alugadas de Olinda, os gringos estão arrumando as mochilas agora e saindo pela rua levando seus colchões debaixo do braço. É colocar o pé na rua que aslembranças viram saudade na hora. Mesmo que eles voltem todo ano, nenhum carnaval vai ser esse carnaval. Nós dois também, nunca mais seremos os mesmos.

 Olinda agora respira entre soluços, porque é hora de guardar os enfeites, se despedir dos amigos e dos amores eternos de quatro dias, de curar a ressaca e voltar pra vida normal que não tem nem metade do brilho, metade da cor, metade do frevo que tinha antes.

 Não quero que não seja mais carnaval. Não quero que meu pra sempre com você termine agora.

 Mas vou ter que querer.

 Por isso, eu lhe digo logo: não saia de casa hoje, sábado de Zé Pereira. Não vá pra Olinda. Não me encontre. Não deixe Rafa e Bia se beijarem. Não deixe o carnaval acontecer, nem a quarta de cinzas chegar tão depressa, só pra contrariar. Não sorria pra mim desse seu jeito. Não divida sua cerveja comigo. Não me chame pra lhe beijar debaixo do sol de quarenta graus e no meio da multidão infinita. Não faça nada disso, não, seu cabra. E não me peça pra fazer.

 Porque se você me pedir, e me olhar, e eu te olhar, e meu coração fizer um maracatu aqui dentro do peito, eu faço tudo de novo.

Volta

Imagem

Quando você saiu pela porta, sem querer, querendo, a saudade entrou pela frestinha aberta.
Entrou, se esparramou no sofá, abriu uma cerveja e cruzou os pés em cima da mesinha de centro.
A mesinha de centro que a gente comprou junto, naquela vez que aconteceu aquele negócio, lembra?
Eu lembro.
Foi tão engraçado.
Você era engraçado.
Pena que a gente foi perdendo a graça.
Ela saiu junto com você pela porta.
Desde aquele dia eu não te vi mais.
A cidade é pequena e eu ainda ando pelos mesmos lugares.
Mas nunca mais te vi.
Engraçado, porque eu te vejo o tempo todo.
Em todo lugar que eu vou.
Escuto suas risadas, escuto sua voz, escuto você, como se tivesse aqui do meu lado.
Toda vez que eu uso a blusa verde ou o cabelo trançado.
Você foi embora pra ficar pra sempre aqui.
Mais do que você ficaria se realmente ficasse.
Provavelmente você iria embora, se ficasse.
Provavelmente.
Mas fui eu que fiquei.
Visto a blusa verde e tranço o cabelo, enquanto me esparramo no sofá e cruzo os pés em cima da mesinha de centro.
Talvez pegue uma cerveja.
Digo que não, mas sei que estou esperando você voltar a qualquer momento.
Comecei a sentir sua falta a partir do minuto em que você foi embora.
Você foi embora?
Ou é que fui?
Nós dois fomos.
E nós dois ficamos.
Com saudade.
Acho que quando você fechou a porta, deixou aberta uma frestinha aqui.
E eu ainda tô esperando você voltar por ela.
Essa história de ficar distante de você já perdeu a graça.
Eu perdi.
Te perdi.
Eu acho.
Não vou te pedir pra voltar.

Mas você vai?

Saudade é o que fica quando todo o resto já foi embora.
Inclusive a gente.